terça-feira, março 09, 2010

Bull(shit)ying que é pénalti!




Começo – antes de começarem a chover pedras – por dizer que sou pai. Sou pai de 2 crianças lindas, maravilhosas, únicas, especiais, magnificas e a quem nunca, mas mesmo nunca, quero que aconteça uma brisa de maldade que seja. Quero protegê-las dos maus, grandes e pequenos, como quero protegê-las das desilusões, dos desgostos de amor, dos mal-formados, dos mal-amados, dos bandidos e de todos os que possam olhar de lado e pensar que sendo mais fortes, lhes podem fazer mal.
Feita a introdução, começo então a desfiar o que me passa pela cabeça quando ouço falar em bullying. E o que me passa pela cabeça são uma data de disparates – como seria de esperar.
Penso que os tempos mudaram, que o mundo mudou, que há 30 anos atrás o estado de coisas era substancialmente diferente. E penso no quanto se ganhou, no quão mais facilitada está a vida, quão mais democrática e livre e quão mais intensa. Mas penso também no quão mais pobre está tudo. De espírito, pobreza de espírito, quero eu dizer.
O que nos leva ao bullying em termos genéricos. Desde que me lembro, crianças mais pequenas fugiram a 7 pés dos maiores. Desde que me lembro, os “grandes” roubavam a bola aos mais pequenos. Desde que me lembro, os maiores sempre levaram vantagem e os pequenos ou eram mais rápidos ou mais tarde ou mais cedo ia tocar-lhes qualquer coisa. Lembro-me de ser pequeno e contar ao meu pai isto e aquilo e lembro-me de ser grande. Se calhar fui vítima de bullying ou fui bully mas a verdade é que sem terminologia técnica, limitei-me a ser pequeno até ser grande.
E o que me faz hoje confusão é a capacidade que a sociedade tem de conseguir transpor para fora de casa toda a responsabilidade. Exigem-se leis, maiores e mais eficazes acções do sistema educativo, mais atenção por parte dos professores e aqui e ali, uma maior atenção por parte dos pais. Maior atenção? Se tem que ser maior é porque há pouca e nesse caso, meus amigos, é ter mais. Sou pai, como disse, e não concebo essa noção do “dar mais atenção aos sinais”. Não é normal – é aliás, perfeitamente anormal e lamentável – que uma criança de 12 anos se mande ao rio para acabar de vez com o tormento. Não se admite, não se compreende e dá vontade de chorar. Mas se o sistema educativo fosse mais eficaz, a legislação mais apertada e o controlo por parte da escola mais rigoroso, seria isso capaz de evitar a tragédia?
Podemos, como tantos têm feito, especular sobre a vida daquela criança. Sobre o seu comportamento, o dos colegas, dos professores e dos pais. Podemos mas pela parte que me toca, não o farei. Ninguém deve perder um filho muito menos uma criança. Não sei se já tinha dito mas sou pai.
Mas também fui filho. Dos pequenos e dos grandes. Brinquei na rua sem supervisão de um adulto, apanhei e atirei pedras, paus e o que mais houvesse. Subi a árvores e andei de bicicleta sem capacete. Corri as ruas do meu bairro de manhã à noite. Sujei-me – muito – e fiz sangue. Nas pernas, nos braços, nos joelhos, nos joelhos, nos joelhos (nos joelhos fiz mesmo muito sangue), na barriga e na cabeça. Fiz 30 por uma linha e safei-me. Mudei de passeio vezes sem conta e fui dar voltas maiores para não ter que passar aqui ou ali. Fazia parte. Desenrascava-me como podia e sempre, mas sempre, com o objectivo de não levar na corneta, não ficar sem a bola, sem o estojo novo ou a mochila. Esse era o objectivo. Se desse para cumprir, óptimo, senão, queixinhas ao pai que resolvia a coisa o melhor que sabia e podia.
Mas isto quando era pequeno. Já em grande, também devo ter enfernizado a cabeça a uns quantos miuditos mais pequenos, também lhes devo ter tirado a bola quando tinham que ir para casa só para chatear, para dar uns toques ou até que o pai, diligente, eloquente e muito maior que nós, aparecesse.
Tudo isto fez parte do meu processo de crescimento. Tudo isto fez com que percebesse que tive o melhor pai do mundo (que eu quero ser para os meus filhos) que me defendeu e me ensinou a defender (e a correr como o diabo também). O pai que me proibiu de levar brinquedos caros (que eram poucos) para a escola porque podiam roubar. Que me deixava levar o estojo fixe com íman para a escola mas só de vez em quando. O pai que me deixava levar uma bola para a rua mas das foleiras porque a de cauchu, só quando ia jogar comigo. Sim, o meu pai ia jogar à bola comigo, ia brincar comigo, passava tempo comigo. Lia os sinais em regime diário.
Tudo isto fui eu.
Não havia sistema educativo vigilante nem responsabilização da ausência de leis adequadas. Havia filhos e havia pais. Havia casa e havia a rua.
Não havia playstations e wiis a partir dos 5 anos, jogos de porradaria em barda a partir dos 7 (ou antes que o puto até tem jeito). Havia telejornais mas lá em casa, isso era coisa de adultos e à hora do jantar conversava-se e ouvia-se música. Cá em casa também. Não havia palavrões à minha frente e cá em casa, é assim. Não havia discussões inflamadas e cá em casa, só no Benfica-Sporting se houver um pénalti não assinalado.
Aos meus filhos dedico todo o tempo que posso e não confio que seja a escola a ter que dar-lhes as ferramentas todas. Terá que dar algumas garantidamente mas não todas. Sou eu quem tem que estar atento aos sinais e não posso esperar que sejam os sinais a bater-me na testa.
Não sou melhor nem pior que os outros pais. Sou assim simplesmente.
Por isso toda esta discussão acerca do bullying me faz soltar um bullshiting.
Psiquiatras, psicólogos, pedopsiquiatras, pseudo-intelectuais, bananas, meninos agredidos e agressores; já todos tiveram os seus 15 minutos de fama e a ver pela entrevista do Sousa Tavares, cheira-me que era rapazinho para ter dado uns sopapos nos putos mais pequenos.
Porque hoje, admito, é mais fácil ligar a televisão aos fins de semana de manhã e dormir mais um bocadinho do que sair do quentinho Sábado à mesma hora de segunda. Uma pessoa anda cansada. Os dias são cansativos. São reuniões atrás de reuniões, projectos atrás de projectos, portátil em casa (eu e ela) em estilo call center até às tantas, às vezes dia sim dia sim. É cansativo e exigente. E ser pai? Haverá maior responsabilidade? Haverá tarefa mais hercúlea? Haverá maior trabalho que conduzir uma criança (duas ou mais) até que saiba andar sozinha?
Dá uma trabalheira desgraçada. Há dias que apetecia mesmo, mas mesmo mesmo enfiá-los na máquina de secar (que tem o tambor maior) e dar-lhes só umas voltas a ver se acalmavam. Dá vontade mas cá em casa a máquina é ambivalente e o tambor pequenino. Nem à vez lá cabiam.
E de uma penada é isto. Que o bullying de hoje são “os grandes” de ontem e do que os sinais de ontem são os mesmos de hoje. E que às vezes, o bullying começa onde menos se espera: em casa.
Segredos? Não há segredos. É estar. “Passar tempo” em vez de “perder tempo”. “Brincar com” em vez de os “deixar a brincar”. “Falar com” em vez de “ouvir qualquer coisa” em ruído de fundo. “Ouvir” o que têm a dizer e “perceber” o que pensam, “como” pensam e “porque” pensam assim. É abrir os olhos.
Porque de olhos abertos tanto se percebe uma criança infeliz como um pénalti clarinho muito para lá da linha da grande área.

4 comentários:

marion disse...

es exactamente como lo has descrito.
marion

disse...

Hoje dão-se nomes - de preferência estrangeiros para dar um ar mais sério à coisa - ao que toda a vida aconteceu naturalmente. Acho que foi a forma que se arranjou para se descartar responsabilidades.

Ana Raquel disse...

Não digo mais nada.
Foi tudo dito.
É por isso que gosto de si!
**

Anónimo disse...

Boa tarde,

Estou a contactá-lo em nome do site EDUCARE.PT.
No seguimento do seu post teríamos todo o interesse em entrar em contacto consigo. Para o efeito, venho por este meio solicitar o envio do seu endereço de email ou número de telefone para jpauperio@educare.pt .
Fico a aguardar o seu feedback.

Os meus cumprimentos,

Joana Paupério
Educare.pt