Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

ar

Vamos lá então.
Tenho andado aqui a pensar – que é sempre uma forma “simpática” de começar um texto para quem esteve meses sem dar notícias – em meia dúzia de coisinhas que aqui podia deixar.
São ideias soltas e sentires que se vão acumulando e juntando até que não dá mais.
Sem ser por partes – porque indo por partes perde-se metade da piada – vou desfiando ideias com o nexo possível que a ventania cá dentro o permitir.

1ª corrente de ar (que já tinha soprado ao de leve):
De repente, num momento mais que esperado mas que nunca se quer que chegue, o reflexo por trás da porta de vidro já não sou eu.
Morre dentro de mim uma esperança que se acalenta e se leva no fundo dos bolsos envolto no cotão dos dias. Pedacinhos de tabaco que os maços de cigarros largam com a vontade que os dias não avancem; desprendem-se e seguem deixando-me na ignorância de que uma noite, uma noite destas será a primeira em que o começo a perder. Será de novo a noite mais difícil desde há muito tempo. Já vivi o mesmo sentado ao lado. Já senti os dedos perderem a força de quem não consegue segurar nada de nada. Já me perdi a pensar como será essa noite e porque raio há-de chegar. Porque vai chegar. Como se os dias se levassem por um plano que mais tarde ou mais cedo vai desembocar numa pendente. É uma curva em que subimos o mais que podemos e uma noite destas, uma puta duma noite destas, vamos começar a descer. E se parte de mim não quer essa imagem em pausa, há uma parte que se apoderou do comando e a única coisa que sabe fazer é repetir e repetir e repetir e repetir a mesma imagem vezes sem conta, o mesmo cenário, as mesma possibilidades, os mesmo corredores que não têm luz à noite e onde se ouvem os gritos da idade. Mudos que se ouvem e ecoam e nós surdos que não ouvimos outra coisa senão isso.
Não há banda sonora nesta história. E logo ele que adora música e me ensinou a ouvir de tudo para saber de tudo. São ferramentas, dizia-me tantas vezes e eu, pequeno, não percebia. E são mesmo. É a música que me ajuda e me leva e me trás. A mesma música que os meus filhos cantam vezes sem conta. As notas estão todas lá apesar da ordem poder ser a que lhe quisermos dar. Um dó é um dó e não há dó maior que o de olhar e vê-lo assim.
A mim, que me fez chorar o que escrevia, que me fez chorar de orgulho e de tristeza. A mim, porque um dia largámos a dizer o que não queríamos e chorámos meses baixinho entre um estás bem? e do outro lado, sim.
Doía tanto. E depois passou e ele voltou e voltámos a ser o que sempre fomos.
Ele, o meu pai e eu, o seu filho.

2ª ventania:
Por 3 anos percorri aquelas calçadas sem nunca perder o sentido do que levam e trazem. Não perdi o sentido mas perdi-me e deixei de sentir em mim para sentir ali. Naquele cruzamento mágico onde a luz bate às 3 da tarde e me encostava só para ter o privilégio de poder ali estar. De poder aquecer o corpo e deixar as ideias em lume brado antes de as levar para baixo abrigados do frio.
Por 3 anos subi e desci aqueles degraus vezes sem conta. Aqueles degraus que nunca foram escadas para lado nenhum. Aquelas paredes que não me iludiam na sustentação da estrutura mas me contavam histórias de lágrimas deixadas a correr, de amores ali roçados e de trabalho noite após noite, dia após dia.
Por 3 anos de dia e de noite. Ouvi muito e vi o muito do que podem ser as pessoas; os miúdos apaixonados, os decanos sós que só precisam de quem os ouça.
Por 3 anos ali andei. Quis ser dali, dali mesmo. Daquela pedra partida ao meio. Daquele degrau falhado. Daquela fissura que bem podia parir ideias.
E nesses 3 anos cresci. Nem sempre como se deve crescer mas cresci.

3ª lufada de ar fresco
O que se descobre por acaso faz às vezes melhor à alma que aquilo que procuramos. Há alguma coisa no abismo dos dias que nos faz espreitar para lá das esquinas sem ter medo do que pode ser depois. Como há qualquer coisa nesta noite fria que me faz pensar nas palavras doces que podem ser tão duras como gelo e nas palavras cruas que podem ser tão suaves como o breu.
Há qualquer coisa na dureza de um olhar capaz de destruir um sonho como há qualquer coisa na ternura de um som capaz de fazer explodir um homem.
Há coisas que nos apanham na rede. Somos peixes isentos de guelras que respiram o que sentem. Somos os ventos todos do mar. Somos a soma das coisa e a subtracção do mal. Somo um arco-íris numa viagem de regresso. Somos o sim e o não. Somos o que queremos ser e podemos ser tudo sem ser nada. Somos tudo e somos nada.
Somos de viva voz o que não somos em silêncio. Somos alguém que somos nós sem ninguém dar por isso.
Somos o que quisermos ser sem ter que o ser. Somos o prazer.
Somos a manta no frio da praia a ouvir as ondas. Somos a luz no meio da mata que nos dá o conforto de sabermos onde estamos. Somos a água que rega uma planta e o sol que a faz crescer e tal como o Garrett, nem precisamos de sair do quarto.
Somos o pecado da gula.
Somos o dia. Somos este ar fresco que me arrefece os olhos e me faz chorar. Somos tudo o que queremos sem ninguém nos perguntar. Somos um número por trás do vidro, um nome por trás da porta, uma criança no recreio da alma. Somos a noite. Aberta e fresca como tem que ser. Abafada de mimos e festas e tudo. Aconchegado no meu colo, levo as horas todas comigo para a cama. Deito a cabeça na manhã, na tarde e nos intervalos destes dois. Fecho os olhos. Amanhã é outro tempo de estrear ideias e pensamentos. Mais viagens e caminhos e sorrisos; e se tudo correr bem, carinhos. Mais um pássaro que chilreia na rua quando a lua espreita, solene, nua. Mais uma onda que rebenta e se acaba; e que leva na areia molhada o retrato dos pés de uma criança.
Mais uma ideia que sobe altiva e se perde. Mais uma palavra que se gasta. Mais um sorriso que se aprende. Mais um riso tímido e um deixa lá isso.
Mais um som – sempre as ondas – que ouço ao ir deitar. É sempre o último som antes dos beijos. E é sempre o som dos meus desejos.
Pergunto o que cantarão os pássaros a esta hora da noite e nunca me respondo.
Dispo o dia que fica arrumado e tento dormir. Acordado.

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

às vezes

Dias e dias vazio. Sem nada de nada, ou melhor, com muito, mas nada de digno. Não que fossem coisas impolutas todas as que costumavam sair.
Já me tinham pedido e pedido e pedido mas andava relutante em voltar. Mas volto, desta vez sem promessas nem cadências. Volto com a mesma vontade de sempre. Com a força mais forte. Mas sem compromissos.
É que aqui ao lado, por trás da porta, o que vejo enche-me, preenche-me e transborda fora do mais que possa amar. Está tudo ali. Deitados no chão e a cantar. Estão ali.
Eram as horas mais bem passadas as que pudesse ficar só a ouvir as vozes doces que me alimentariam. Mas não posso. Ninguém pode. Os dias passam num repente que não damos por ele e ao espelho, às vezes não reconheço o reflexo de um dia e outro.
Passa o hoje, o amanhã – e agora tocam piano – e o que não se fez não se fez. Faz-se depois.
Porque há dias doces de lamber os dedos e outros em que se descobre na crueza das coisas o fascínio de alguém.
Não há uma pessoa do lado de lá, há o mundo inteiro. Não há um amor, há o amor. Não há uma vida. Há isto que é bom todos os dias e às vezes assim assim.
Pela chuva que cai diria que está frio mas não; está bom. Ou então sou eu que estou quente.
Andei tanto tempo para agora dizer tão pouco.
Mas é que soube-me bem este bocadinho aqui ao pé de ti que não me apetece ir embora. Fazes-me falta.
Às vezes bastavam duas frases. Duas frases e já matava o bicho. Às vezes bastava uma ideia pequenina. Era só vê-la aqui que me deixava logo mais feliz.
Podia ser escrita à beira de um abismo, podia ser gritada para se ouvir com eco. Podia ser tanto e tão pouco. Era só querer e a verdade é que às vezes quero e às vezes não.

Domingo, Maio 24, 2009

Diz que disse 22

Eu a trabalhar e ela - a Pim - em casa com a mãe e com o batata.
Ao telefone:
Eu: Olá filha
Ela: Olá paizinho lindo querido amor
Eu: o que é que estás a fazer?
Ela: estou a falar ao telefone contigo. Posso passar ao mano?

Fui amado e despachado em nano segundos.

Eu: filho....
Ele: paiiiii
Eu: Olá filho....
Ele: paiiiii
Eu: sim filho
Ele: paiiiii
Eu: diz filho
Ele: paiiiii

E foi isto mais 2 minuto até que a chamada caiu.

A ver se logo quando chegar a casa acabamos as conversas.

Quarta-feira, Maio 20, 2009

De rajada



Um projecto quase quase no ar; uma música que faz dançar os meus filhos; uma amiga que já não via há muito; um brinquedo novo; um sorriso novo e este jeito nas costas que me dá cabo da paciência.

A mulher de (para) sempre; os amigos comigo; uma viagem que mesmo que não aconteça sabe bem pensar nela; um almoço ao sol; uma ida ao campo; palavras novas e xixi no bacio.

Descobrir outra vez a marginal e os reflexos do sol no rio; descobrir que a descoberta das palavras é a melhor de todas; corrigir um “cáti” para um “está aqui” e ouvi-lo dizer tão bem; ver o brilho nos olhos grandes de orgulho no mais pequenino.

Levar os dias com um sorriso sem o deixar cair; encarar o vento de frente e ouvir os pássaros.

Sentir o frio da noite no calor da cama; sentir o calor do corpo no frio da noite e só sentir.

Dar de rajada meia dúzia de palavras ao mundo para que se usem nos dias, nas noites e nos intervalos do tempo.

Vergar-me perante a vida e aprender. Perceber como se faz melhor e imitar. Manietar os hábitos negros e pintar a calçada dos dias com cores luminosas.
Entregar-me.

Assim vou levando tudo comigo nesta caixa pequena de recordações.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

já não digo nada

Não fazia ideia do tempo. Desde novembro, não era? É muito.
Não adianta fazer promessas e dizer que venho cá mais vezes. Não venho. Não adianta querer forçar.
Hoje vim. Apeteceu-me. Havia e há muito por dizer aqui mas como tudo, tem o seu tempo, os seus minutos certos. Há coisas que levam mais de um ano rabiscadas num papel mas que hoje não fazem sentido.
Continuam na minha cabeça – vivas como ontem – mas já não são para aqui. Precisavam de enquadramento e nem eu tenho tempo nem vocês espaço no disco rígido. Era preciso contar tudo outra vez e tudo é tanto que chegando ao fim é quase nada.
Não sei se é o medo de me entregar outra vez, de pôr a nu os meus medos que me faz recuar.
Tenho todos os dias frases soltas do príncipe e da princesa que me podiam fazer vir aqui mas por isto, por aquilo e muitas vezes por nada de especial, não venho.
Se calhar é da crise que me atingiu sem eu dar conta. Se calhar o sub prime do mercado das palavras entrou em queda. Se calhar foram as aplicações erradas em fundos de capitalização fácil de palavras difíceis.
Se calhar investi onde não devia e agora estou nas lonas.
Ou talvez não.
Ainda me apetece escrever.
Não prometo nada mas vou tentar passar aqui quando vier para estes lados.

Sábado, Novembro 15, 2008

DIz que disse 21




Enfiada no meio do trânsito, liga-me a minha princesa para me dizer que está parada - como aliás já estava 20 minutos antes - excatamente onde estava da última vez que me ligou. Por entre "ai que raiva" e "porque é que eu vim por aqui" ouço a Pinzinha desabafar para o irmão: "'tamos feitos Batata".

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Antes de acordar outra vez



Há por aí um beijo envenenado, apaixonado. Daqueles como o primeiro que nos deixa o corpo anestesiado.
Inebriado de prazer, sedento de saber a que sabe o resto depois do beijo. Do primeiro.

Há pelas ruas um corpo doce e macio que mesmo sem roupa alguma não sente o frio. Que desliza pela calçada, corpo ao sol. Nem frio nem quente. Nada.

Há um olhar por aí. Que nos seduz mesmo quando não nos vê. Que nos despe a alma e nos lê. Que nos sente o medo e recua. E ataca manso de olhos no chão para chegar perto e deixar que esses olhos nos levem pela mão. De mão dada.

Há uma estrela que noite após noite brilha só para mim.
Que me seduz com a sua luz. Que me cega de deslumbre para me deixar sem norte e me faz andar à roda à espera que dê com o corpo na sorte. Ou um dia na morte.

Chamo a mim as forças que posso. Arrasto o corpo atrás do sonho de um dia me deitar antes de acordar. De pousar a cabeça na lua e sentir o sal do seu mar.

Aos tropeções no vento, dou de caras contigo. Sinto os teus cabelos por entre os meus dedos. Passo um dedo só na curva do teu cheiro. Pouso-o na boca.

Silêncio.

Só a música da noite. De uma viagem na estrada lá ao fundo e de um grilo incansável mesmo aqui ao pé de mim. Neste enorme jardim. Nesta enorme moldura verde que me separa do outro lado.

Mais uma palavra e morro. Mais um suspiro e grito por socorro.

Mais uma vez e caio. Mais um olhar e desmaio.

Mais um beijo e começo a sonhar a três. E basta apenas um beijo para acabar tudo de vez.

Sentado no parapeito do inferno, contemplo as chamas que numa noite gelada são um bálsamo quente, húmido e terno. Arrumo as ideias no armário, fumo outro cigarro e deixo-me ir.
Está na hora. É agora.

Tanto e nada para acordar outra vez cansado, esgotado e sentado em cima dos dias que acabei por não arrumar.
Talvez amanhã os separe por temas e os arquive. Talvez amanhã os ponho em montes, lhes tire o pó e suspire.
Talvez amanhã que agora já o dia novo chegou e eu, agarrado aos gritos doces e pequenos da manhã, esqueço-me de tudo. Lembro-me de tudo.
E fico. À espera que de novo me acorde o sonho. Que de novo se abra a noite escancarada e descarada. Sem um único prurido, sem vergonha de nada, sem um gemido. Sem um sorriso.
E só eu sei como esse despertar me mata.

Terça-feira, Setembro 30, 2008

estou cansado

Estou cansado do futuro adiado e do banco hipotecado.
Dos fundos mal geridos e dos poços secos e feridos.
Estou cansado de não ver o sol a fazer brilhar os seus olhos grandes e os seus dentes brilhantes.
Estou cansado da má gestão e da sempre e autista politica de intervenção.
Da questão sindical e das greves no hospital.
Estou cansado do nuclear pacifista num reactor comunista. Do comunista mal amado que em que se tornou o capitalista estado. Estou cansado da globalização e da reacção que provoca. De ver na Suécia uma manifestação com uma marcha feita em sola de borracha do Paquistão.
Estou cansado do terrorismo assumido, da bomba inaudível que mata milhões. Estou cansado de túneis profundos e de falsificação de neutrões. Estou cansado das nacionalizações e das anunciadas recessões.
Do genoma humano descodificado que não é capaz de curar a doença que me tem atormentado.
Dos clones de ovelhas e de partes de ratos que não garantem mais amor nem sapiência, nem menos dores a quem sofre maus tratos.
Estou cansado dos artistas boémios, rebeldes, pertinentes e cheios de paixão que dão 2 gritos no escuro e fazem disso uma intervenção.
Estou cansado da novidade que se anuncia como a viragem que tem que ser feita e do presidente que há-se ser a cura da próxima colheita.
Estou cansado de concursos que premeiam a pequenez humana e dos outros que dão dinheiro às fatias a quem come numa hora o que muitas crianças não comem em dias.
Da escalada de violência que nos consome e da violência que se ignora de quem tem fome.
Estou cansado da corrupção com desmantelamento anunciado num juízo adiado.
Estou cansado da notícia pequenina que ninguém lê e de quem nunca pergunta porquê?
Estou cansado dos analistas que têm sempre opinião e nunca gritam: acção.
Do D. Sebastião – o da esquerda ou o da direita - que nunca se há-se chegar à frente enquanto a crise estiver à espreita.
Estou cansado dos tablóides que colocam na capa quem nunca disse nada de jeito porque queria meter a mulher e a sogra no leito.
Estou cansado das sensibilidades mal geridas, das pessoas que são falsas e quase quase sempre, “emocionalmente feridas”.
Estou farto das histórias tristes que fazem chorar as pedras da calçada e da felicidade propositadamente adiada.
Estou cansado das carpideiras.
Do choro fácil e soluçado numa falta de protagonismo ensaiado.
Estou cansado de me doerem os olhos quando vejo o que não quero. Do que sofro quando não dou tudo que tenho e me escondo atrás das sombras de um objecto estranho.
Estou cansado de ouvir banalidades amplificadas pelo poder de quem nunca soube o que era aprender.
Estou cansado que ver passar por mim as mesmas caras sombrias que nunca se abrem para dar os bons dias.
Estou cansado de Forças de Manutenção de Paz pela contradição que este nome trás.
Das armas inteligentes criadas por grandes mentes.
Dos génios oprimidos que criam novos comprimidos.
Estou cansado do investimento em botox e em cosmética que não ajuda os que esperam na fila por uma fatia de pão numa embalagem hermética.
Das experiências médicas mal sucedidos onde não se dá conta quando se perdem vidas.
Estou cansado do domínio etéreo da televisão e de quem não pensa numa solução.
Estou cansado.
E então eu pergunto: quanto custa ser feliz?

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

3 dimensões (obrigado Marion)




Sair de baixo do lençol do silêncio para apanhar frio na alma? Não me perece nada boa ideia. Fico no quentinho das ideias e nada nem ninguém me vai obrigar a apanhar correntes de ar na massa cinzenta.
Para quê afinal?
Bem sei o bom que sabe uma palmadinha no ego – ao de leve que o ego é fraco. E aí dá vontade de tentar outra vez. Pôr o coração a debitar letra atrás de letra naquele jogo de juntar sílabas e consoantes do mesmo tom. Mas... eu sei lá o que hei-de fazer com tanto ponteiro e tão poucos traços.
Lembro-me de fazer isto por prazer vezes sem conta e amordaçado outras tantas. Às vezes cheio de dores que até o teclado se queixa. Outras cheio de tanto “feliz” que encandeia.
E de tantas vezes tentar usar as cores certas nos lugares certos. Como a banda sonora escrita para aquele momento. Lembro-me de tentar fazer música com isto.
E diz um outro menos surdo que resulta. Que sabe bem.
Nunca tive um estádio cheio com 500 páginas a assistir nem fiz acústicos para uma plateia de bolso. Nunca experimentei fazer a coisa ao vivo.
Acho que sou daqueles que só funciona em estúdio. Eu e uma folha. E letras em montes.
E o céu aberto sobre mim. Se chover melhor. Se for de noite então. E se for uma noite chuvosa de Verão?

E então lá vão uns por outros ouvindo os sons das palavras na sua cabeça. Vozes diferentes, é certo, que na minha o narrador é sempre o mesmo. E não sou eu.
E quando as letras dizem o que querem em inglês, de boca muito fechada e arrastando-se como à saída de um bar, dizem-se em americano. A voz é a do rei lagarto. Não sei porquê mas é sempre a ele que lhe calham as locuções. Se calhar tem tempo.
Esfrega uma mão na outra para limpar a areia da ampulheta que partiu em 71 e sem rede, sem ensaio, agarra-se às minhas palavras e arrasta-as pelo microfone.
“He drags them down straight from the gutter. Dirty as trash – but never worn out – he speaks out, loud as hell, near my heart, near my brain and it looks like a door to the mind in the desert. Thirsty, waiting for some blood to keep the road passing underneath my mind.”
E são palavras assim que o ouço dizer.

(E quando penso nisso penso que a diferença entre heart e hears é de uma letra apenas. De um T empertigado e vistoso para um S torcido sobre si próprio, envergonhado. Será o coração que fala pleno de propriedade e as orelhas se limitam a deixar entrar qualquer som que se produza? Deve ser assim.)

Tenho andado de cabeça engripada, cheio de ideias mal curadas que não podem ver a luz do dia. Parece uma doença de falta de pigmentação no cérebro que não deixa o sol entrar, nem pelos poros do corpo. Tapado, de olhos virados para dentro, tenho vivido os dias como dantes mas agora, não sei porquê, há muito que guardo a noite para os pontos de luz na caixa. Alta definição de baixa qualidade intelectual. É o que tem apetecido. Empapar a cabeça até sentir escorrer pela orelhas o bolbo raquidiano e a massa encefálica. Tudo junto num cocktail intragável de viscosidade indescritível. E depois vou dormir.
Ando a perder grãos de areia é o que é.
E isso não pode ser. Tenho que voltar ao que era eu. Aqui especado de vez em quando sem saber que palavras pôr porque tenho vontade de as pôr todas. Sempre é melhor ter mais que menos e eu ainda tenho muitas guardadas aqui na caixinha em cima dos ombros.
É só voltar a levantar a tampa.

E as 3 dimensões?
3 planos para isto:
- pôr uma letra que fique bem entre 2 que já lá estejam
- usar as cores todas – mesmo que se repita uma ou outra para dar mais luz aqui ou ali
- respirar fundo, aumentar o volume e ligar o teclado ao disco interno (aquele que está aqui a fazer pum pum pum pum pum pum pum pum)

e se isto fosse um quadro? É melhor não.

Terça-feira, Setembro 23, 2008

Quem é o maior, quem é?


Aproveitando descaradamente a ideia de um amigo, ganhei pontos com a princesa. Passado que está o verão de toda a gente, veio esta semana de férias com 7 diazinhos para gozar do princípio ao fim. E como o fim do dia estava perfeito, lá fomos para a praia.
20 minutos depois, um parque inteiro para pôr o carro e uma praia inteira só para nós.
- Já viste filha? O pai reservou a praia toda só para nós.
- E aqueles senhores ali ao fundo?
(um casalinho de namorados na torre – agora – abandonada do pessoal das marés vivas mas com menos silicone, que estava ali só para me dar cabo do esquema)
- Estavam a guardar a praia como o pai pediu. Agora já se podem ir embora.
E não é que eles foram?
Quem é o maior, quem é?
- o Pai.
E fez aquele sorriso maravilhoso que rebenta de felicidade qualquer um.

É aproveitar agora que amanhã ela cresce é já não pega.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Obituário?

Apetecia-me ser arrogante, insolente.
Dar-me mais importância que a que tenho e olhar de cima.
Aproveitar cada minuto.
Deixar para trás quem não me merece e não me respeita.
Dar um chuto nisto e ir à vida tirar meças. Pedir satisfações. Chamar-lhe puta.
Virar costas e decidir os meus dias. Ter a coragem de uma vida e tentar. Arriscar. Saltar do precipício sem temer o desconhecido. Ignorar o perigo de não se estar seguro. E se um dia acordar, olhar para baixo e perceber: olha... acabou-se.
Sou eu ali, deitado. Bonito o fato, mas eu preferia uma t-shirt. Daquelas minhas que me conhece o cheiro e as formas e que já devia ter ido para o lixo quando se descoseu no ombro.
Mas foi a partir dessa altura que mais me passou a apetecer vesti-la.

Merda pá. Não fiz nada.
Aguentei-me ali com medo. E agora olha, é o que se vê. Adiantou muito.

Mas fui feliz. E tirando hoje que só me apetece olhar para baixo, sou mesmo muito feliz.

Sexta-feira, Maio 30, 2008

Que Saudades

Que saudades. De vir aqui e olhar para isto. De vos ver e me lerem.
Que saudades que eu tenho dos mimos.
Até de Espanha já me perguntaram se estava tudo bem.
Está. Está tudo muito bem.
Não tenho sido assaltado – o que é sempre bom – e tenho andado a mil.
Não tenho tempo nenhum e babar-me no sofá- eu sei que a imagem é bonita mas por favor contenham a emoção – já virou serviço de luxo.
A Pim continua linda e o Batata também. Estão a crescer e isso ocupa-nos muito. Dá trabalho isto de criar os pirralhinhos. Dá muito gozo, é verdade, mas um trabalhão monumental.
De vez em quando lembro-me de vir aqui – e venho. Mas saio logo de seguida, metido no meio da sombra dos últimos comentários.
Ainda tenho posts antigos para pôr aqui mas como não estão acabados, teimam em não vir até estarem completamente arranjadinhos.
Um dia virão.
Agora se calhar só depois da mudança. Sim, vou mudar. Vou perder a vista do castelo e descer 6 andares para uma casa maior, melhor.
Continuo na mesma. Apaixonado.
E vou voltar. Caraças. Vou mesmo.
Obrigado.

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Ainda há pessoas simpáticas

Pode parecer estranho este post, que chama ao título “ainda há pessoas simpáticas” e que seguidamente se vai atirar ao assalto de que fui alvo. Mas faz sentido.
Dormia "so’gadito" o meu carro na garagem quando do nada, o larápio se terá aproximado e sem mais delongas, me terá violentado a viatura.
Partiu uma micro peça sem danificar demasiado a porta, abriu-a, sentou-se e retirou suavemente o painel de instrumentos. Como? (de "pode repetir e não de como é que raio tirou o painel" - isso foi facil, é só retirar os parafusos) Perguntará o sr. Leitor. Isso mesmo que lê, o painel de instrumentos. Todo, inteirinho, de uma penada, manómetros, velocímetro, conta rotações e demais indicadores. Pode dizer-se que me levou as luzinhas. Todas.
É desgaradável e surpreendente. É desagardável porque se perde uma manhã a ligar para a locadora, a pedir carros de substituição, a tratar dos papeis e a esperar por reboques e táxis. É surpreendente – e aproveito para vos ouvir – porque não conheço ninguém a quem tenham levado o painel de instrumentos. Rodas? Sim. Espelhos? Claro. Carros inteiros? Com certeza. Agora, o painel de instrumentos???? Não estou a ver. Não está o Sr. leitor a ver nem eu vi. o que vi, isso sim, foi o buraco.







E com isto quase não chegava às “pessoas simpáticas”. Diria mesmo mais, simpáticas e preocupadas. Então não é que o sr. Ladrão – que me merece respeito pelo cuidado e empenhamento que coloca na sua arte – depois de tirar o que queria, voltou a trancar as portas. Percebe-se. Com os índices de criminalidade de hoje ainda me levavam o carro.


E à laia de recado, queria só dizer ao sr. Ladrão que se precisar, que passe lá hoje à noite; o carro já está na ofocina, mas o parafuso que deixou por descuido, deixo-o no mesmo local à espera que o leve.

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Hoje é só mais um dia

Hoje é só mais um dia.
Mais um dia para namorar de entre todos em que namoramos.
Hoje é mais um dia para trocar sorrisos como os que trocamos todos os dias.
É mais um dia de carinhos como os de sempre.

Hoje é só mais um dia de dar flores como as que tantas vezes levamos para casa.
Hoje é dia de trocar aquele olhar, como fizemos ontem.
Hoje é só mais um dia em que digo que te amo como digo todos os dias de manhã, à tarde, à noite.

Hoje é só mais um dia para ser feliz como fui ontem.

Ainda bem que hoje é só mais um dia. E que amanhã é outro e que todos os dias são só um. Ainda bem.

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Diz que disse 20

Depois de lhe explicar (mais ou menos) como funciona a força da gravidade, a propósita de qualquer coisa que ela deixou cair, pergunto-lhe:
"Pim, o que fez isto cair para o chão foi a força da ....?"
(......)
e eu ajudo
"a força da gra..."
e ela dispara"...ciosa"
É que 'tá completamente vidrada no mundo das princesas.

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Sonhos de brincar

Vejo os seus sonhos em paz numa noite igual à minha.
Deito a alma sobre a deles e vou.
Penso no “prometo que vou sonhar contigo papá”. E o que é que eu digo? Que sim. Que sonhe. Que eu sonho com ela todo o dia. E com ele o dia inteiro.
Que os vejo a brincar nos meus olhos. Que os vejo aos beijos de paixão. São paixões. São irmãos.
Faço-lhe uma festa e dou-lhe um beijo. Fecho uma porta ao lado da que abro e repito o gesto. Uma festa e um beijo. Um afecto.
Tiro-lhe o cabelo da cara e tapo-a quanto posso. Ponho-o direito e deixo-lhe o conforto a jeito.
Penso mais um pouco quando o ouço sonhar. Paro tudo; fico atento àquele palrar minimal, doce e fatal. Que me mata de tanto amar.
Sou tão feliz que não me quero ir deitar. Preferia trocar as voltas aos dias e olhar a noite toda adivinhando como são os sonhos pequeninos.
- São doces de certeza. Bons de brincar -
Devem ser sonhos que terei sonhado um dia.
Vejo-os crescer como uma buganvília que se entrelaça no ar. Colada à parede da casa antiga cresceu até ser árvore.
De um tronco pequenino fez-se grande.
Maior que eu.
E eu sonhava ser assim e crescer até ao céu.
14|Jan|08

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Começou Ontem


Fui ontem buscar o meu novo bichinho. Já me andava a coçar todo - a ressaca de Mac é tramada - e ontem não me aguentei. Foi duro - porque foi - e caro. Mas foi ontem e hoje ando a instalar coisas, a descobrir o que o novo tem e o outro não tinha e isto tudo para dizer que é desta. Já cá mora mais um post e não passaram mais que meia dúzia de dias.
Dos outros? Brevemente. É só agarrar no caderninho e passar a limpo. Mas está para breve. Como se eu me aguentasse.
Agora vou ali fazer um chapéu ecológico para a Pim levar para a escola.

Domingo, Janeiro 06, 2008

olha...o gajo voltou

voltei mas ainda a menos de meio gás. não tenho tido tempo e o tempo que tenho faz-me falta. o mais importante é que a vontade de escrever não se estragou e ainda me apetece muito agarrar na bic e deixar cair as letras por aqui. ainda não tenho o meu mac mas não falta tudo. tenho as ideias e as letras para fazer palavras. o "diz que disse" carece de actualização e se calhar tem que passar a "diz que disse de forma acertiva e pespineta". os "desabafos" - como este - andam por aí em folhas soltas de papel. um dia destes volto e em força e vou tentar não estar quase 3 meses sem vir aqui. vou mesmo. obrigado pela paciência.

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

É só para dizer que ainda aqui ando. Calado, é certo, mas apenas por 2 motivos:
roubaram-me o computador e o trabalho não tem dado tréguas. É só isso. Mas estou aqui. E continuo com vontade de escrever. Voltarei, prometo.

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Diz que Domingo houve Marginal Sem Carros

Domingo foi manhã de Marginal sem Carros e como de costume, eu e a Pim lá fomos. Saímos de casa, eu a pedalar e ela, na sua cadeira, a cantar. E a verdade é que ela cantou cantou cantou mas quase não a ouvi. Do meu cérebro disparavam-se mensagens simultâneas para os mais variados músculos: olha a velha, olha o puto, cuidado com o pedalar dessa pequenina, olha a velha, olha as velhas, vais para que lado? Olha o ciclista profissional, queres água filha? Olha a família lado a lado, olha o grupo de tias no jogging de corte e costura, olha o puto, olha o puto, olha o puto.
e enquanto tudo isto acontecia, a Pim cantava desalmadamente como se nada fosse. Eu aos esses por entre esta gente toda e a Pim no seu larai larai. ao fim de hora e meia, ouço da cadeirinha a sua voz doce: estou cansada pai, vamos para casa.