quinta-feira, setembro 25, 2008

3 dimensões (obrigado Marion)




Sair de baixo do lençol do silêncio para apanhar frio na alma? Não me perece nada boa ideia. Fico no quentinho das ideias e nada nem ninguém me vai obrigar a apanhar correntes de ar na massa cinzenta.
Para quê afinal?
Bem sei o bom que sabe uma palmadinha no ego – ao de leve que o ego é fraco. E aí dá vontade de tentar outra vez. Pôr o coração a debitar letra atrás de letra naquele jogo de juntar sílabas e consoantes do mesmo tom. Mas... eu sei lá o que hei-de fazer com tanto ponteiro e tão poucos traços.
Lembro-me de fazer isto por prazer vezes sem conta e amordaçado outras tantas. Às vezes cheio de dores que até o teclado se queixa. Outras cheio de tanto “feliz” que encandeia.
E de tantas vezes tentar usar as cores certas nos lugares certos. Como a banda sonora escrita para aquele momento. Lembro-me de tentar fazer música com isto.
E diz um outro menos surdo que resulta. Que sabe bem.
Nunca tive um estádio cheio com 500 páginas a assistir nem fiz acústicos para uma plateia de bolso. Nunca experimentei fazer a coisa ao vivo.
Acho que sou daqueles que só funciona em estúdio. Eu e uma folha. E letras em montes.
E o céu aberto sobre mim. Se chover melhor. Se for de noite então. E se for uma noite chuvosa de Verão?

E então lá vão uns por outros ouvindo os sons das palavras na sua cabeça. Vozes diferentes, é certo, que na minha o narrador é sempre o mesmo. E não sou eu.
E quando as letras dizem o que querem em inglês, de boca muito fechada e arrastando-se como à saída de um bar, dizem-se em americano. A voz é a do rei lagarto. Não sei porquê mas é sempre a ele que lhe calham as locuções. Se calhar tem tempo.
Esfrega uma mão na outra para limpar a areia da ampulheta que partiu em 71 e sem rede, sem ensaio, agarra-se às minhas palavras e arrasta-as pelo microfone.
“He drags them down straight from the gutter. Dirty as trash – but never worn out – he speaks out, loud as hell, near my heart, near my brain and it looks like a door to the mind in the desert. Thirsty, waiting for some blood to keep the road passing underneath my mind.”
E são palavras assim que o ouço dizer.

(E quando penso nisso penso que a diferença entre heart e hears é de uma letra apenas. De um T empertigado e vistoso para um S torcido sobre si próprio, envergonhado. Será o coração que fala pleno de propriedade e as orelhas se limitam a deixar entrar qualquer som que se produza? Deve ser assim.)

Tenho andado de cabeça engripada, cheio de ideias mal curadas que não podem ver a luz do dia. Parece uma doença de falta de pigmentação no cérebro que não deixa o sol entrar, nem pelos poros do corpo. Tapado, de olhos virados para dentro, tenho vivido os dias como dantes mas agora, não sei porquê, há muito que guardo a noite para os pontos de luz na caixa. Alta definição de baixa qualidade intelectual. É o que tem apetecido. Empapar a cabeça até sentir escorrer pela orelhas o bolbo raquidiano e a massa encefálica. Tudo junto num cocktail intragável de viscosidade indescritível. E depois vou dormir.
Ando a perder grãos de areia é o que é.
E isso não pode ser. Tenho que voltar ao que era eu. Aqui especado de vez em quando sem saber que palavras pôr porque tenho vontade de as pôr todas. Sempre é melhor ter mais que menos e eu ainda tenho muitas guardadas aqui na caixinha em cima dos ombros.
É só voltar a levantar a tampa.

E as 3 dimensões?
3 planos para isto:
- pôr uma letra que fique bem entre 2 que já lá estejam
- usar as cores todas – mesmo que se repita uma ou outra para dar mais luz aqui ou ali
- respirar fundo, aumentar o volume e ligar o teclado ao disco interno (aquele que está aqui a fazer pum pum pum pum pum pum pum pum)

e se isto fosse um quadro? É melhor não.

4 comentários:

Anónimo disse...

Ó Boris Vian do Chiado!
Tomaste a medicação hoje?

Gaguinho disse...

deixai o sr em paz. não vez que o homem era engenheiro - de profissão e da prosa?
não lhe chego aos pés mas gostava (sem medicação, de preferência).
Obrigado

marion disse...

Gracias a ti por escribir.
¿Alta definición de baja calidad intelectual? Yo creo que tu escrtura, tu pensamiento es alta definición de una gran calidad intelectual. A mí me pones la piel de gallina...
Un abrazo

Carla Veríssimo disse...

ainda bem que re-voltaste!!
escreves bem!