terça-feira, março 07, 2006

Próxima Estação: Estação Terminal


Fez o caminho que outros já tinham feito e era a esta altura, uma mulher feliz. Tinha 2 filhas lindas, já mulheres, e 3 netas de cortar a respiração. A mais velha – ainda sem ter 2 anos feitos – e as gémeas – com menos um ano – faziam as delícias da jovem avó. Tinham sido todas uma luz que se acendera dentro dela. A par das suas filhas e dos pais – ainda vivos – as princesas eram a sua luz e os “tão lindas” repetiam-se a cada visita, a cada gesto.
Era para elas que dirigia a sua atenção e eram elas – tão pequeninas – que a faziam levar um pesado barco para a frente. Mas ia.
Como tantas outras mulheres, tinha enfrentado um divórcio penoso e difícil e como tantas outras mulheres tinha conseguido sair do negro buraco da solidão.
Levava a vida por objectivos e apontava a direito rumo às metas. Uma viagem, uma cozinha nova, uma casa de fim de semana. Tudo metas que atingira com esforço e com trabalho mas onde orgulhosamente chegara.
A viagem fizera-se como qualquer viagem. Com altos e baixos, mudanças de estação, confortos e desconfortos, agrados e desagrados. Fizera a sua viagem com discussões, chatices, indisposições. Acima de tudo, fizera a viagem com a consciência de uma boa mãe e a devoção de uma boa filha. Norteara por aí o seu caminho e não falhara.
Feliz ao seu modo e timidamente sociável conhecera algumas carruagens para além da sua. Por curiosidade e desmedida vontade de aprender, agarra-se à pintura com carinho e ostentava com orgulho as suas obras. Perdia horas e reproduzir uma fotografia que achava “bonita”. E finda a tarefa, mostrava-a a toda a gente. “Já viste o meu quadro novo?” e entrava uma neta em cena: “tão linda”.
Eram estes os seus dias mais recentes. Por entre uma ida ao ginásio e as tarefas normais de uma jovem-avó-reformada-ama-das-netas, ainda arranjava tempo e paciência para um jantar com amigos, um passeio de fim de semana, uma ida ao Alentejo.
Por altura do natal, o tempo frio e uma súbita perda de apetite fê-la ir abaixo e temer uma nova operação.
Maldito bicho que teimava em formar-se no corpo com uma cadência estupidamente ritmada e que fazia soar os alarmes de ano a ano.
Mais uma vez, viu-se na injusta rotina de exames repetidos vezes sem conta e diagnósticos que já sabia na ponta da língua. “temos que operar”. Mas desta vez foi diferente. Não foi possível tirar o bicho fora. Não foi possível mudar de carruagem e seguir viagem.
Guinchou no desvio e magoou toda a gente à volta. Fez mossa.
Apagaram-se as luzes da esperança, da vontade, da vida.
A meio caminho da estação com correspondência com “Mais Tempo”, desviou-se o combóio para a Estação Terminal.

Apesar de tudo, a viagem tinha sido boa.

Boa Viagem. Vai com cuidado.

5 comentários:

Luísa disse...

: )

As viagens fazem-se sempre por dentro de nós.
Um beijo.

Gaguinho disse...

Obrigado luisa
acontece que esta viagem vou ter de a fazer ao lado de muitas pessoas. e não é boa. não é mesmo nada boa. mas obrigado na mesma.

Luísa disse...

Isto de as coisas serem boas ou más depende do que queremos aprender com elas...
Felizmente conseguimos aprender com tudo... Por isso nada consegue ser assim "tão" mau.

Um beijo grande. E, se precisares, estou aqui.

Maggs disse...

é frágil a matéria de que nos fazemos e, infelizmente, o caminho é só de ida. porém, a consciência da viagem feliz parece-me a forma mais gratificante de sabermos que valeu a pena.

Anónimo disse...

Ao ler estas linhas fez-me pensar em muita coisa de que nunca me tinha pessado pela cabeca. Nunca pensei na vida como uma viagem em que se vai mudando de carruagem, como se fossemos ou viajando na primeira classe, ou na segunda e por vezes quando tudo se torna dificil termos de mudar para uma carruagem de terceira. Foi a maneira que consegui interpretar agora com esta leitura verdadeiramente as várias fases da vida. Mas sou da opiniao de que mesmo assim temos de pensar que tudo pode mudar e as fases más se podem tornar de um momento para o outro em boas, ou simplesmente aproveitar cada bocadinho que ainda nos resta, com as pessoas que mais amamos.