terça-feira, setembro 28, 2010

Diz que disse 40

Ao jantar, conversamos os 4 sobre o dia de cada um (leia-se, sobre o dia deles que nós não temos grande direito de antena).
Num ataque – frequente – à lá Roberto Begnini de “I Love you all”, o Digos começa a dissertar que ama muito a mãe, e o pai e a mana, e os avós e os amigos.
Nós rimo-nos e retribuímos.
E ele: “E vou casar com a mãe a com a Pim.”
E nós rimo-nos.
E ele: “E vou casar com o pai”
E a Pim muito depressa: “Não podes Digos. Não podes casar com o pai que o pai é menino.”
E ele: “Posso posso.”
E ela: “Não podes não. Só os gays é que podem.”
Todos:(......)
Eu: “Gays? O que são os gays, Pim?”
Ela: “São meninos que casam com outros meninos.”
Eu: “OK Pim” como se me tivesse contado algo completamente novo que só ela sabia.
E o jantar prosseguiu na paz do senhor, com mais conversas e histórias.

(Por muito que não olhe para o calendário, há certas e determinadas coisas que me relembram o ano em que vivemos, a época em que vivemos e as mudanças do mundo à nossa volta.)

Diz que disse 39

Não são raras as vezes em que, em vez de infernizarem a vida um ao outro e consequentemente aos pais, o Digos e a Pim brincam juntos sem incidentes de maior.
Ontem, escondiam-se à vez. A dada altura passo no quarto e lá está ele: braço à frente dos olhos, encostado à parede, ainda nem um metro de gente a gritar alto e bom som:
Ele: “um… dois… três… quatro… seis…”
Eu: Oh Digos… quatro… cin…
Ele: “cinco”
Eu: “seis”
Ele: “seis”
Eu: “mais…”
Ele: “(....) outro”
Acho que ainda é cedo para dizer mas parece-me que números não é com ele.

Diz que disse 38

De manhã, no carro à ida para a escola, a Pim conta uma história ao irmão. Um príncipe e uma princesa (quase sempre elenco residente) vão passear e mais não sei quê e de mãos dadas e são namorados e depois:
“… e então vão para fazer sexo.”
Eu: “vão fazer o quê Pim?” – com o ar mais entediado do mundo como se a nobreza tivesse decidido ir jogar cricket.
Ela: “vão fazer sexo pai. Não sabes o que é?”
Eu: “não estou a ver… é o quê?”
Ela: “é quando o menino e a menina tiram a roupa e vão namorar.”
Eu: “ah pois é…”
Ela: “já te lembras?”
Eu: “já filha, já me lembro”
E a história lá continuou noutro cenário, noutro contexto e desta vez, para menores de 18.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Contido




Flor no chão à luz da lua
Tremida, vendida, cortada, rasgada

Sonhas em segredo
Conténs o sorriso
Os olhos escondidos e a boca fechada
Não falas, não gritas, não dizes nada.

Não me olhas nos olhos com medo de ti e mastigas os dias em silêncio.

Escondes a paixão que não sabes explicar
Sobes ao alto, pico de loucura.
Ouves os pássaros de manhã num piar constante. És um mutante que ama e detesta. Que agrada e contesta, que vai e não vem.

Viras uma folha. Duas. Três.
E vais. Arrastada pelas horas que não sentes. Pelas palavras guardadas entre dentes. Pela língua que não soltas porque não sabes dizer.
Desejas; tens medo.
Sublinhas o bater do coração com uma caneta grossa que se veja. Que tu vejas. Que saibas que és tu quem vive por dentro.
Pegas fogo em ti e não te esqueces. Não me esqueces. Não me apagas num dia, numa vida.

Não te apagas num sopro.
Mas demoras.


Acordas e em silêncio ouves a noite respirar. Acordas no exacto momento em que não querias acordar.
Era perfeito esse sonho. Era perfeito o momento... e o sentimento.

terça-feira, setembro 07, 2010

Diz que disse 37

Na escola, uma auxiliar ia apontando para a cara e perguntando:
- O que é isto?
- A boca.
- E isto?
- As orelhas.
Então apontou para as pálpebras.
- E isto Digos, o que é?
- (…) Isso… isso é uma parte dos olhos
- Uma “parte” dos olhos?
- Sim. É normal que os olhos tenham partes.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Diz que disse 36

Ao jantar, já não me lembro a propósito de quê, a Pim dispara:
- Mas mãe, isso não é apropriado!
Pára tudo. A minha Pim tem 6 anos e “apropriado”, não sendo palavra de uso exclusivo em defesa de tese, também não é muito comum numa criança de 6 anos.
- Tens razão Pim, não é. Mas diz-me: por acaso sabes o que é que quer dizer “apropriado”?
Riu-se algo timidamente e respondeu:
- por acaso até sei – com ar respondão e muito senhora de si.
- e então o que é que quer dizer?
- Oh… quer dizer… quando uma coisa… quando é… quando não é…
E eu a pensar: já te apanhei….
E ela:
- Uma coisa não é apropriada quando não é (pausa dramática) adequada.
E depois explicou à sua maneira mas bem, o que significava “apropriado” ou “adequado”.
Respondi: perfeito filha - e mais não consegui.
E pareceu-me que ficar orgulhosamente calado era o que de mais adequado poderia ter feito.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Diz que disse 35

Porque podiam, a Pim e o Digos estiveram 4 semanas fora de casa. Duas connosco e mais duas com os avós.
Chegámos ontem ao final da tarde e naturalmente, as saudades dos brinquedos, dos livros e até do espaço, deram-nos uma boa hora e meia de "quase" paz.
Enquanto estávamos na cozinha a beber um café, passa o Digos com um ar muito decidido. Caixa das ferramentas debaixo de um braço e uma mala com brinquedos na outra mão.
- onde é que vais Digos?
- vou pôr isto à porta.
- para quê filho?
- para não me esquecer.
- não te esqueceres de quê?
- de levar isto para a casa do Alentejo quando for de férias.
- (...)
Não é fácil explicar a uma criança de 3 anos que as férias acabaram e que ainda falta "um bocadinho" até chegarem novamente. Mas explicámos e ele, rendido, lá agarrou nas suas coisas e foi arrumar no quarto.

Não se equaliza a paixão




Já não tenho a dificuldade inicial quando monto o equipamento. Manómetros e traqueia pela esquerda, regulador e auxiliar à direita.
Abro a garrafa, verifico tudo, analiso o ar e do que é composto e volto a fechar.
Tudo para o barco e vamos.
É sempre a parte mais dura. Não se faz nada a não ser encher o tempo com conversa mas quando se chega ao sítio certo é ver quem prepara tudo mais depressa. Verificações repetidas por segurança. O meu equipamento e o de quem me acompanha. E então começa.
De costas para a água, uma cambalhota e por fim o O.K. final. Está tudo bem? Estamos todos? Vamos embora para baixo.
E o ir para baixo é o princípio de tudo. Basta meio metro. Meio metro apenas e já estamos lá. Já não tiramos o regulador da boca nem por nada. Quero descer.
Vou tirando ar ao colete e lentamente afasto-me da superfície. Um olho na pressão da garrafa, outro no profundímetro e continuamos. Metro a metro, mais coisa menos coisa paro. Os ouvidos dão sinal e equalizo. Equilibro pressões que o corpo pede.
Quanto mais desço mais quero descer.
Cinco metros, seis, sete. Isto não é nada. Hoje vamos aos 30. Nova paragem; aperto o nariz, olho para cima e faço força. Estalou. ‘tá bom. Desço e desço. Olho para quem me rodeia. Está tudo bem? Está Manuel. Sim, os ouvidos estão bons. O Pedro olha para mim. Estás bem? Faço sinal que sim. Desta vez a máscara já não embacia. Desta vez a máscara está colada a mim e nem uma gota de água me distrai. Nada.
Dezoito metros. A partir daqui é tudo novo. Vinte.
Paro. Subo um bocadinho; equalizo e desço novamente.
Respiro fundo. 3 ou 4 vezes bem fundo. Fico mais calmo. Controlo melhor a respiração. A flutuabilidade e os meus movimentos. Quanto mais calmo, melhor. Não há pressas e não tenho medo nenhum. Se alguma coisa correr mal, alguém me há-de dar ar. Mas não corre.
À nossa volta está muita gente que não vejo. Sei que estão lá porque vimos os barcos. Somos muitos os que se apaixonaram por isto. É muita gente.
Mas lá em baixo, somos só nós. O Manuel, o Pedro, a Ana e eu.
Paramos. À nossa frente, um monte de ferro transformado em recife. Mal se percebe ao princípio o que é isto. Mas depois parece que tudo começa a ganhar forma. Está deitado a descansar este cargueiro que se partiu aqui há 21 anos. Dezanove dos 45 tripulantes ficaram lá. Mergulharam com ele. Morreram ali.
É um local sagrado este.
E belo. Ergue-se do fundo. Faz parte do fundo.
Num dos lados, um enorme rasgão deixa perceber o interior do barco. É grande. É enorme. Mesmo partido o River Gurara não se mostra todo. Mais tarde voltamos para o segundo mergulho. À vez, espreitamos. O Manuel passa-nos a lanterna e quando sou eu pergunto se posso entrar. Um bocadinho, diz-me por sinais. A curiosidade é mais forte que o medo. Há ferros a toda a volta. Numa fenda que parecia tremenda mal me descuido e dou com a cabeça em qualquer lado. Procuro um sítio onde me apoiar. Encontro. Respiro. Não percebo mas estou 4 metros para dentro na barriga do monstro. Lá de fora – dizem-me depois – não me viam. Não percebi. Perdi-me com a lanterna a descobrir caminhos impossíveis de fazer de estreitos. São dezenas de metros para lá de onde não passo. Cabos, peças de navio. Desfaz-se nas luvas este bicho que já teve 175 metros de comprido.
Ali, estático, nem penso na respiração, na flutuabilidade, em nada. Estou a ver. Estou quieto.
Um toque no ombro. Tenho que sair? O.K.
Quanto de ar? 80, 70. Quem tem menos manda. Ainda damos uma volta pelo leme e pelo hélice. É tudo grande. Mas pequeno comparado com o que sinto.
Era capaz de estar horas a fio lá em baixo. Não me canso. Toco nos peixes que nadam à nossa volta. Apanho as pedras que prometi levar e disparamos a máquina, quase sem perceber, 160 vezes. E houve bonecos engraçados.
Não respires agora por causa das bolhas. Sorrio e sustenho a respiração. Já está.
Quero voltar aqui.
Quero voltar aqui; voltar à água. Quero pousar nas rochas devagar. Ver os peixes, as anémonas e os pequenos corais. Quero ver este barco afundado outra vez.
Respirar devagar, perder-me com os olhos. Subir meio metro, descer meio metro. Controlar o meu corpo no espaço.
Quero voltar porque estou apaixonado e o que sinto, por norma, dificilmente consigo equalizar.

quarta-feira, agosto 25, 2010

No Fundo




Falta-me ver tudo. Mergulhar no mar da lua. Perceber as incongruências da idade. Desejar e ter. Querer e fazer.
Ter à mão só porque sim. Dar-te um beijo. Estar assim.
Ser lua cheia todos os dias. Chorar os arrependimentos todos de uma vez. Descobrir a cura sem ir à loucura.
Não perder ninguém devagar. Não olhar.
Guardar para mim as memórias bem vivas. Jogar à bola outra vez contigo em Belém. Ir ao cinema de mão dada.
Ligar só para perguntar. Ouvir-te rir como dantes.
Não fiz nada e queria mostrar-te tudo. Sentir na tua voz o entusiasmo de sempre. Sentir-me forte e capaz. Ficar mudo de espanto por te ouvir contar histórias. Ser outra vez criança. Sentir o teu abraço apertado. Sentir a tua força. Ser mais como tu.
Queria que os meus filhos te vissem fazer coisas com as mãos. Desmontar qualquer coisa com milhões de parafusos e peças soltas. Chamar as ferramentas todas pelos nomes.
Deixá-los contigo uma tarde.
Uma e outra vez não consigo. E por mais que queira, o tu que eras não pode estar comigo. Por mais que quisesse evitar, por mais que te quisesse curar, por mais que não quisesse chorar, dou por mim sentado a escrever lágrimas no papel.
Por mais que te agarre, por mais que te puxe, por mais que queiras já não me olhas no olhos e eu precisava disso. De te ouvir ao olhar para mim. Do tanto que eras capaz de dizer num abraço apertado.
Sinto tanto a tua falta.
Fumo um maço numa noite e ainda não fiz nada.
Sábado vou mergulhar. Para os miúdos vou trazer uma pedra a cada um apanhada a trinta metros e a ti mostro-te as fotografias que tirar no fundo. Hás-de ver o azul pelo menos. O azul do mar.
Se calhar não percebes que sou eu no meio de tubos, máscaras e sei lá que mais mas sou eu pai. Estás a ver aqui? Sou eu lá em baixo.
E enquanto souberes que eu sou eu fico feliz.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Coisas Simples




Estou encostado, meio deitado num cadeirão insuflável que mal se mantém amparado.
Balanço ao som da rega. Ora para cá, ora para lá.
Por cima, a mesma companhia de ontem e dos outros dias todos.
Os pés nus vão sendo compassadamente molhados pelos restos colaterais que os aspersores libertam (apesar de cuidadosamente alinhados).
O Alentejo continua quente – mesmo a esta hora - e o dia de amanhã promete ser febril.
As crianças dormem. Estão cansadas e quando chegam à cama a vontade de continuar as conversas é rapidamente anulada pelo sono.

Lá dentro, por detrás de um laranja vivo num tecido leve, esperam-me mais umas horas de conversa. Mais um entrelaçar de pés no sofá enquanto os personagens de um filme qualquer contam uma história.
Cá fora, encostado, meio deitado, debito mais uma ideia. Sobre as coisas simples que me deixam feliz. Como os pés molhados.

Fumo mais um cigarro.
Perco-me na moldura amarela da janela.
Fecho os olhos no escuro à procura de uma estrela. Quero vê-la.

Não quero notícias nem novidades. Não quero saber de meias verdades. Não quero saber.

A cadência ritmada e este tac-tac-tac deixam-me as ideias claras. Ponho de parte as palavras caras. Quero o mais simples das coisas simples. Quero os pés molhados, uma e outra vez. Até que o jardim se sinta saciado. Até que o calor seja abafado. Até que a noite se entregue toda. Até amanhã.

terça-feira, agosto 10, 2010

sempre igual




Não muda o cenário que me envolve quando escrevo.
É quase sempre a noite que me mexe.
Quase sempre a estrela que não esquece.

É a memória das horas cheias que se entornam pelos dias.
Dos risos, das palavras e das alegrias.

Do lume que se fez forte; do tempo que não tem norte.
Da aragem solta que me leva o fumo.
Dos grilos longe que marcam o compasso.
Dos amores mais sólidos que o aço.

Das crianças aos gritos no jardim. Dos mergulhos do Digos e da Pim.
Dos amigos a correr; do saber sem saber que fazem hoje o que serão depois.
Que amanhã quando o sol nascer e quando abrirem os olhos, tudo o que vão ver é um sorriso largo. É um bom dia cheio de saudades.
É um abraço, um beijo e os planos das horas cheias de novidades.

À minha volta estou só eu. Na minha volta não estou só.
Uma sebe mal aparada não conta que só se acerta no Outono ou na primavera. E agora é verão e não posso agarrar na tesoura só porque a estética botânica diz que sim. Não posso e é assim.

Obedeço a estas regras naturais. Trato da relva que ouço crescer nos dias mais longos.
Estendo os dias ao sol e escolho a molas melhores.
Não por serem a mais fortes mas por serem as maiores.

Desenho as palavras que me peço. Escrevo o que quero e o que não esqueço.
Desdenho os escritores maiores. Pela lucidez, pelo que se impuseram, pelo talento.
Pelas regras que seguiram no seu tempo. Pelo tempo que ganharam na escrita que nos deram. Pela capacidade absoluta de dizer tudo o que sentiam.

Desdenho e admiro os escritores maiores. Por não ser capaz de o fazer. Por não ter pretensões e só prazer.
Pelo gozo que tiro quando uma frase sai bem. Pelo bem que me faz sem ter que o fazer a mais alguém.

E por ser tão complicado, tão intrinsecamente rebuscado; por ser tudo quase nada. escrevo isto numa penada, fecho o texto e vou para dentro.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Diz que disse 34

O Digos adora o avô e ficou todo contente quando lhe dissemos que depois das férias ainda teria mais uma semana com o avô.
À saida, agarra-se a ele, abraça-o e diz-lhe com ar solene:
- Até Greve.

A ver se me ponho a pau não se junte o bicho à irmã e formem um sindicato.

terça-feira, agosto 03, 2010

O Escafandro e a Borboleta



As férias têm destas coisas. Deixam-nos à mercê dos dias e nós, de férias, deixamo-nos ir. Sem horários, sem pressa para coisa nenhuma – a não ser para chegar à praia antes das 9 e meia. Tudo o resto tem tempo.
E como tudo o resto para além do que tem tempo, continua, ligo o rádio de manhã só para saber o que é que o resto do mundo anda a fazer. Regra geral, 3 notícias chegam. São as grandes parangonas do dia e repetidas à exaustão de meia em meia hora não me vão trazer nada de novo para além da primeira vez em que as ouço.
Mas hoje, hoje foi diferente. Hoje as notícias que trazia o éter não me deixaram indiferente.
A semana passada foi o António Feio. Hoje, Mário Bettencourt Resendes. E se a semana passada foi a morte de um actor que me habituei a ver na televisão e no teatro e com quem estive uma vez apenas, hoje foi diferente. Hoje foi um professor de faculdade. Daqueles por quem se ganha um tremendo respeito pela sapiência infinita e generosidade na distribuição de saber. Hoje foi o professor de faculdade por quem – acredito – todos os seus alunos ganharam admiração e respeito.
Durante um ano, foi meu professor e durante um ano, todas as aulas foram plenas de sabedoria, de experiência e de uma tremenda simpatia.
Se calhar por nunca ter sido um aluno espantoso – longe disso – não foram muitos os professores que guardo da minha vida académica. Da secundária, um único com quem me cruzei há pouco tempo na rede. Da faculdade, meia dúzia e desses, 3 que guardo com enorme apreço e carinho. O Mário Bettencourt Resendes era um desses.
E mais uma vez, doença sinistra que bate à porta e mais uma vez, a sabedoria de uma vida não foi capaz de a ludibriar.
Ao homem e ao professor digo adeus. A tudo o resto,
Lá em casa, numa prateleira, repousa um livro que comprei quando mo indicou. “O Escafandro e a Borboleta”. Fala de um homem que no pico da sua carreira sofreu um acidente vascular cerebral paralisando-o por completo com excepção do olho esquerdo e do cérebro. Foi o suficiente para letra a letra escrever o livro em questão. Um livro autobiográfico carregado de esperança e de perseverança.
Ao escrever isto, sinto-me como um jornalista à antiga em início de carreira. Ao que parece, quem entrava fresquinho numa redacção de qualquer pasquim tinha a dolorosa tarefa de fazer a ronda pelos hospitais, policia e bombeiros para saber as desgraças. E quando graves, reportar os óbitos.
Quem me contou foi o Professor Mário Bettencourt Resendes e tal como aos jovens jornalistas, de vez em quando a notícia que reportavam tocava-lhes mais fundo.
Adeus professor. E obrigado.

sexta-feira, julho 30, 2010

Pos-packshot




Há uma tendência natural para endeusar os mortos. Porque depois de nos finarmos, não fazemos mal a ninguém e fomos todos tão bons moços e simpáticos e sem nada a apontar e os uns heróis e em suma, os maiores.
Há uma tendência que no fundo não passa de uma grande balela – para não dizer, uma hipocrisia de merda. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Morreu António Feio. Actor, encenador, comediante, professor e antes de tudo isto, um homem persistente com uma graça natural do caraças.
Conheci – porque cresci com eles – os personagens que levou à cena. Os bonecos quase todos. Da Vila Faia ao Tóni foram muitos. Da televisão ao Teatro, do cinema ao stand-up. Nunca privei com o homem mas uma vez estive com ele uma manhã em estúdio para a gravação de um spot qualquer. E quem conheci nesse dia foi um tipo simples com ar simpático e cheio de histórias.
Eu, que não sou gajo para ficar calado, lá lhe fui perguntando sobre peças que tinha visto, reacções, surpresas.
Conversa boa e desprendida.
E depois começou a falar de coisas que queria fazer, que tinha visto em Londres uma peça e que a gostava de trazer para Portugal. Ah sim? O quê? É uma coisa dos Monty Python. Se na altura houvesse facebook e um botão em rodapé no discurso de cada um de nós, tinha disparado logo um Like.
Falámos mais um bocado. Entrámos em estúdio, gravou o que tinha a gravar, aperto de mão e um Obrigado. Meu e dele.
E foi isto.
Não faço juízos de valor nem de carácter. Não tenho carta para isso e não é 1 hora e meia que faz a vida de um gajo.
Gostava do actor. Gostava dos bonecos.
E sorte filha da puta, teve o azar de abrir a porta a uma doença que conheço bem demais. Não é justo para ninguém e muito menos para quem nos faz rir.

quarta-feira, julho 21, 2010

The Moment




Postponing dreams for far too long
Sending messages all night long
Writing notes on small post-its
Compiling this shit with big Paper clips

Shout out loud
Stare at the Sun
Scream from my heart
Become blind, deaf and dumb

Stare at the sky
Cry at the stars
Howl at the moon
Travel to mars

Stop what I’m doin’
Shut myself down
Find the whole truth
Make a hole in the ground

Listen to the song
Ought to be a better man
But like this, I’m cover
Pretending to be Pearl Jam

Nothing beats the real thing
There’s something about purity that makes great things look even greater. Perfect moments, divine; and heavenly thoughts, demonical.
It’s all about right and wrong, truth and deception. Deceiving you. And no one can beat that.
Be independent but depend on someone’s feelings. Don’t find yourself faking what was supposed to be real.
Take a moment before you die ‘cause to death, you just can’t lie.
Regardless of the mix emotions that tumble in your heart, you’re the first that doesn’t deserve to be in it just for a small part.
Take the whole and make your day. Find the light, come what may.
Step off the rope. It’s way to high.
If you fall from up above, you will die, you will die. And you’re way to beautiful and stunning and smart to be caught in a lie.

Find comfort and calmness
Find peace with yourself
Look straight in your eyes
‘Cause there can be no one else.
It’s you and you alone
It’s better before it’s gone
Fix it and when you’re done
You’ll see that there can be only one.

segunda-feira, julho 12, 2010

Original Sound Track (e um Diz que disse: o 33 desta vez)



Como todos os anos desde há uns anos, os avós ficam uma semana com as crianças no verão. É bom para eles – para os avós – para os miúdos e vá, um bocadinho para nós. É uma semana diferente para todos.
Para os avós, que podem ser os pais que queriam ter sido mas que as obrigações de um pai não deixam mas as de um avô permitem. Para eles, que não estão na escola e que vão à praia de manhã até poderem e à tarde até ser noite, tomam banho de mangueira no jardim e deitam-se tarde depois de um passeio ao café da vila ou de actividades várias como pintar pedrinhas. E para nós, que dá para sair do escritório às 9 e meia da noite e decidir na hora onde ir jantar e fazer disso um momento a 2 onde se pode conversar sobre coisas de crescidos. Dá para ir ao cinema (momento quase solene) e para estar com alguns amigos noite dentro. E dá para ter saudades, sentir a falta e desejar que a semana passe depressa para os poder abraçar outra vez.
Um dia destes ao telefone, depois da minha “drama queen” me dizer que tinha muitas saudades, veio o príncipe e com uma voz solene, tom sério e pouco volume, diz-me:
- Pai, eu quero ir viver contigo.
- Mas tu vives com o pai, filho. Não tarda nada vamos aí buscar-vos.
- Mas eu quero viver contigo todos os dias.
São 3 anos que não conhecem bem as palavras todas e saudades, são uma coisa vaga e de difícil descrição.
- Eu também quero filho. Vais ver que estes dias passam num instante. Olha, diz ao pai, tens dado muitos mergulhos?
A conversa virou e passou o tema.
Mas ficou a frase; ficaram as saudades e os dias que demoram a passar.
Houve muito silêncio cá em casa por estes dias. Não houve fitas nem birras.
Mas também não houve corridas pelo corredor, bolas a bater nas paredes. Não se ouviram as pedras de lego uma única vez nem “mãe, a mana bateu-me”, “pai, o mano tirou-me um brinquedo e não pediu se faz favor”.
E essa banda sonora dos meus dias fazia-me falta.
Hoje, estou outra vez completo e o CD dos meus dias já se fartou de tocar.

terça-feira, julho 06, 2010

El secreto de sus ojos




Eu sabia que os olhos falavam. Que me abriam os portões da alma e me diziam tudo o que não queriam. Que me seduziam, me apaixonavam, me inebriavam e me odiavam. Eu sabia que os olhos falavam mas nunca me ocorreu que guardassem segredos. Coisas simples de amar e de amar. De amor. Histórias guardadas no mais escuro dos retratos, no mais empoeirado dos álbuns da prateleira mais alta. Mas guardavam. Histórias como a que Juan José Campanella conta. Uma história simples em 2 horas de obsessão, paixão, um amor mudo, uma amizade surda e um humor mordaz, inteligente e impulsivo.
Uma história sobre o que os olhos dizem sem nada dizer. Uma história de um amor que vence o tempo e de uma vida carregada num castigo de ser cheia de nada. Uma história que faz de um crime hediondo a razão para se escrever sobre o quanto ama este herói.
Que grande filme. Que grande história. Que bom acabar a noite assim.

sexta-feira, junho 25, 2010

Chegou o Verão no calendário.



Chegou o Verão no calendário.
Trouxe novas nuvens sob o mesmo sol. Um calor bom e um barco no fundo do mar.
Trouxe os incêndios que ardem nos dias de sempre e queimam os olhos com o fumo quente.
Chegou o Verão do futebol. Da selecção de todos nós em que ninguém acreditava. Do futebol espectáculo da América do sul. Do pragmatismo da Europa central, das surpresas africanas e das desilusões e vergonhas gaulesas e italianas.
Chegou o Verão com o mar vermelho pintado de negro e de “amarelo-crise” o mediterrâneo. Das praias cheias de gringos e sem chumbo 95.
Chegou o Verão dos dias mais longos. Do sol até mais tarde. Da lua até mais não.
Chegou o Verão da roupa fresca de linho em casa, da água fresca no corpo; dos banho de água fria; da água.
Chegou o Verão da cabeça quente. Das discussões suadas pela manhã. Das ideias parvas. Dos almoços adiados na esplanada frente ao mar. Dos barcos no rio sem vento p’ra andar.
Chegou o Verão das saudades de casa. Das tardes na relva e da sardinhada.
Chegou o Verão de parar um bocado. Das férias mais perto e do tempo adiado.
De aproveitar para almoçar demoradamente, beber 2 copos de sol, comer 2 nacos de tempo e esperar que chegue a noite. Sempre.
Chegou o Verão de encontrar espaço para quem se gosta. De perguntar porquê mesmo que não haja resposta.
Chegou o Verão há 4 dias mas estamos mais moles e mais moles é mais lentos e se me desse na cabeça, era capaz de escrever isto lá para Setembro.
Depois do Verão, verão que nada mudou.

quinta-feira, junho 17, 2010

Do que passou a correr




Do acordar antes da hora que o corpo quer. Do despertar à força. De abrir os olhos com os dedos porque de outra maneira, fecham-se num sonho qualquer.
Do entrar no duche ainda a dormir e sair ainda mal acordado. Do me arrepender cada dia das horas perdidas que deveriam ser passadas na cama.
Dos beijos que se dão de manhã. Das festas e cócegas. Do passar a mão pelos cabelos dela. Do enrolar os dedos nos caracóis dele.
Do sentir novo de a deixar sair debaixo da asa. Do sentir saudades ainda com ela à vista. Do deixar ir por uns dias.
Do sol que lhe sabe bem. Do quanto sei que vai rir.
Do que ele gosta da praia. Do que ele corre na praia.
Do voltar atrás. Do pequeno almoço à pressa fora de horas.
De uma manhã perdida na estrada. De uma tarde perdida em nada. Dos sorrisos.
Do pensar no 28, na volta que dá e no que alguém vai descobrir amanhã.
De uma Masterclass que foi uma feira de vaidades. Da ausência de conteúdo e de novidades.
Dos amores que não se vê um dia inteiro. De uma voz que não se ouvia há muito.
Das saudades da Pim que me faz falta ver. Das saudades do Digos que quando chegar vai estar a dormir.
Das histórias escabrosas sem planeamento. Da ausência de estratégia.
Do bater na mesma tecla. Do jantar ao frio sem sair do lugar.
Das pessoas que não se vêm todos os dias mas que sabe bem ouvir. De rir.
De falar no mesmo grupo 3 línguas diferentes. De fazer o frete porque tem que ser.
De ir a correr.
Dos caprichos.
De uma viagem de metro por duas estações. De Lisboa à noite sem distracções.
Dos beijos que faltam e que já não vou ter. De olhar para ele mais tempo e mais tempo. De lhe fazer festas até quase acordar. De lhe dar beijos sem som mais beijos e beijos.
Da vontade que tinha de aqui vir escrever.
Do Manuel João no Maxime a cantar. Do Miguel Guilherme a sair para jantar.
De pensar que amanhã poderá ser melhor.

De chegar a casa sem ter feito nada.
Do que o dia foi feito desde a noite passada.

segunda-feira, junho 07, 2010

Um olho em Londres




Pelos passeios rampeados é mais fácil levar o carrinho de bebé e é mais fácil levar o carrinho de bebé quando se anda com 2 miúdos. Ela com 6, ele com 3. É verdade que se o carrinho fosse maior até o sénior lá tinha andado mas assim, alternava entre “agora sou eu” e “a mana vai sempre no carrinho” depois dele lá ter passado meia manhã, uma sesta, uma maçã e meio litro de água.
Passámos 4 dias de rua, ou melhor, 3 de rua e um de Legoland. Mas a rua foi melhor – para os crescidos pelo menos que quando os mais pequenos tiverem m blog escreverão sobre o que quiserem.
Passámos 3 dias de ponta a ponta da cidade que conhecemos mas que nunca se conhece bem. Do London Eye a Notting Hill, de Convent Garden a Kensignton Gardens.
Tudo de manhã à noite. Tudo, ou quase quase tudo a pé.
E mesmo com as trocas e as reclamações quanto à posse do carrinho, os meus filhos são os melhores companheiros de viagem do mundo. Cansados, fartos de andar, basta um jardim para repor os níveis de energia.
Para mim, fica a nova velha cidade de sempre. As novas velhas culturas. As novas velhas pessoas. As ruas que não mudam.
Fica Portobello Road com o mercado de Sábado de manhã e Convent Garden com milhões de pessoas Sábado à tarde. Fica a vontade de olhar para tudo vezes sem conta porque à segunda, há uma segunda visão sobre o mesmo olhar.
Há sempre mais. Mais diferenças, mais ruas, mais becos, mais carros, mais pessoas.
Há sempre mais.
Há uma insuspeita quinta-feira à noite com danças de salão num segundo andar. Mesmo em frente ao hotel. Mesmo em frente aos meus olhos. E consigo ver como as mãos deles seguram o par sem lhes tocar deliberadamente. É tango aquilo que se ouve. É música com sexo nas cordas da guitarra, nos acordes do piano e ainda assim. Não se tocam mais que a conta. Não se tocam mais que o tango. Que é muito menos que aquelas duas miúdas que pelos beijos, não se viam há mais um mês. Aquilo é beijos e abraços para mais de um mês. Aquelas mãos entrelaçadas não se tocavam há mais de um mês e quando passam por mim Ainda ouço: how was your flight?
Não sei se era do voo que a trouxe se do voo para os braços uma da outra.
Do outra lado do passeio 3 casais com filhos pela mão. Uma corredora que nos atravessa a todos em direcção a Hyde Park e um inevitável Fox Terrier que faz sempre lembrar um aspirador quando anda com o nariz no chão.
E ainda não acabei um cigarro.
Passamos pela rua manhosa antes de Notting Hill Gate e o cheiro a chicha que sai dos narguilés faz com que o Digos e Pim virem a cabeça. Isto cheira a qualquer coisa. Pois cheira. Vá. Olhem para a frente e sigam. E seguimos.
São 9 da noite. Os 27 graus dizem-nos que estamos noutro lado qualquer que não na cidade onde só choveu para nos dizer adeus. Parece que os ingleses descobriram agora as havaianas. É uma invasão de chinelo no pé e vestidos curtos que de certeza que estamos noutro lado. Afinal não. As cabines telefónicas e os táxis denunciam-na. É Londres mesmo.
Onde não cabe mais gente em lado nenhum mas há sempre uma “table for six”.
Seja no Nando’s, no Grill ou no Zizzi onde a Sandra, espanhola retinta me serviu uma Mela Crocante que passou à segunda colher a ser a melhor sobremesa do mundo.
Cabiam mais linhas aqui como mais olhares sobre a cidade. Como mais pessoas nas ruas, no metro ou lá em baixo.