Vim para aqui hoje à noite e isto ainda não é nada do que eu queria escrever. Só que tenho a cabeça a mil, o trabalho todo que tem que ser feito e o outro que ainda se vai fazer. Deixei a pim-pim a dormir um soninho bom. Cantou o vitinho aí umas 5 ou 6 vezes. Para a avó – lá no céu – para a mãe – ainda não tínhamos acabado de lavar os dentes e já ela estava, com a escova na boca a trautear a melodia – para o mano na barriga da mãe para o pai e para... ela só queria cantar. Mas aterrou na cama e ficou. Deve cansar um bocadinho isto de ter 2 anos e meio e não parar um bocadinho.
Agora vou-me embora. Aninhar-me no corpo da mãe logo depois de uma festa e de um beijo na filha. E antes de dormir, encosto-me e ainda passo a mão pela barriga que já cresce e digo: “dorme bem filho; o pai ama-te muito”.
sexta-feira, agosto 11, 2006
quinta-feira, agosto 03, 2006
Telegrama
Tenho muito para escrever... stop
Fomos ver o bebé e é menino... stop
Tenho ideias que quero aqui deixar para nunca mais me esquecer... stop
Quando fazemos amor, o mundo inteiro parece parar... stop
Os carros deslizam pelas ruas... stop
São os meus olhos fechados ainda no prazer... stop
Um homem tocava música ali nas escadas e fez-me voar nas notas que saiam da guitarra... stop
Ontem foi um dia feliz... stop
E foi um dia feliz também porque me lembrei de alguns dias que passaram e percebi que já tive muitos dias felizes... stop
Vou tentar voltar ainda hoje... stop
Não se vão embora... stop
Fomos ver o bebé e é menino... stop
Tenho ideias que quero aqui deixar para nunca mais me esquecer... stop
Quando fazemos amor, o mundo inteiro parece parar... stop
Os carros deslizam pelas ruas... stop
São os meus olhos fechados ainda no prazer... stop
Um homem tocava música ali nas escadas e fez-me voar nas notas que saiam da guitarra... stop
Ontem foi um dia feliz... stop
E foi um dia feliz também porque me lembrei de alguns dias que passaram e percebi que já tive muitos dias felizes... stop
Vou tentar voltar ainda hoje... stop
Não se vão embora... stop
De memória:
Tinha mesmo que escrever isto
sexta-feira, julho 21, 2006
Lisboa. Ébom.

Estou de lua de mel. Apaixonado. Enamorado por isto tudo outra vez.
Estou numa Lisboa bonita, com vida, com cor, com dor e com muito amor espalhado pelas calçadas. Cada esquina respira vida, cada saída de metro. Cada homem e mulher. Cada criança que grita e canta rua afora. O sol parece ter outra cor, outro brilho. Parece tudo tão diferente. E pela primeira vez, foi preciso estar de fora para perceber como é tão bom estar cá dentro. Aninhado no Chiado e na Rua Garret. Na Rua do Carmo e na Nova do Almada. É tão bom perceber a vida à nossa volta sem ser por nós. Perceber o mundo todo num bocadinho de história e de chão. Olhar para o céu, ver a nuvens. E tudo sem uma janela. Mas respira-se melhor aqui.
Estou em Lisboa. Mesmo mesmo aqui no meio.
E sabe tão bem
De memória:
Tinha mesmo que escrever isto
quinta-feira, julho 20, 2006
Vamos por partes
Vamos por partes
1ª parte - O grito - maior que o de munch (que o meu ensurdece)
Ando oco, vazio, nervoso, choroso. Andei 5 meses para não chorar e agora choro por fim. Andei 5 meses a aguentar e agora basta um sorriso invisível e já está. Foi-se embora a dor maior de ver sofrer quem nada sente e ver partir quem ainda cá está. Já está. Agora foi.
2ª parte - Porque.
porque fui e vim e fui. E vim - que agora já cá estou. Fui com medo de ter que vir. E vim. Logo no dia a seguir.
Foi a pior viagem da minha vida. Com a pim-pim a chorar porque doía o ouvido de uma outite a vingar e ela ao meu lado, a chorar baixinho para a filha não ver mais do que as lágrimas que já tinha visto. 300 quilómetros de estrada à frente. 300 mil de dor moída; cá dentro. Foi um inferno.
Foi um inferno a viagem e a tarde de dizer adeus. Um rosto tapado. Uma noite de sono cansado. 5 meses a dormir com o telefone à cabeceira e nessa noite não.
5 meses a espaços de sono. E nessa noite não.
Foi um inferno a manhã seguinte.
E depois cheguei a casa e chorei tudo.
3ª parte - Isto vai em frente. Isto da vida, quero eu dizer.
Regressámos às férias. Numa paz que 5 dias antes não havia. Numa saudade imensa e numa mágoa instalada. Voltámos para as noites quentes a olhar o céu por cima do mundo. A procurar as estrelas e em particular aquela para quem a pim-pim manda "beijinho" todas as noites." É a avó, filha". E ela, com a cabecinha virada à noite manda beijinhos sem fim e diz na voz mais doce: "até manhã. do'mi bem"
4ª parte – A coisa. Esta coisa dos dias em que não estamos de férias.
Voltámos ao trabalho, à rotina. Ao trânsito das manhãs, ao Pedro Ribeiro e aos Caixilhos e Laminados. Voltámos a fazer a marginal - eu a pim-pim - a ver os barcos, as motas, os carros. Ela voltou à escola e gostou.
E muda tudo. Desde ontem, novo local, nova aventura. Nova equipa, novas pessoas, novos projectos. Nada é assim tão novo como isso. Conheço as pessoas, conheço os projectos, conheço a equipa. Os desafios nem tanto, mas às tantas é mesmo por isso que se chamam desafios.
Acho que a energia que tenho e a vontade de começar outra vez não disfarça o nervoso. É sempre novo. Mas vai ser bom. Até porque quando saímos há sempre uma palavra mais doce que nos deseja boa sorte, que nos diz quanto foi bom trabalhar em conjunto. É sempre bom ouvir isto. São festinhas no ego da gente.
E a gente gosta.
5ª parte - As palavras todas
Ainda tenho vontade de escrever como antes. Ainda me apetece agarrar no teclado minúsculo, olhar para o écran pequeno e debitar palavra atrás de palavra. Especialmente nestas noites em que tinha tantas guardadas aqui no bolso desta cabeça mal engomada.
Voltei aos medos e às paixões. Ao amor de sempre e à pim-pim de manhã à noite. Voltei aos amigos. Voltei para mim ao fim de algum, tempo.
E já tinha saudades minhas aqui agarrado à bic.
1ª parte - O grito - maior que o de munch (que o meu ensurdece)
Ando oco, vazio, nervoso, choroso. Andei 5 meses para não chorar e agora choro por fim. Andei 5 meses a aguentar e agora basta um sorriso invisível e já está. Foi-se embora a dor maior de ver sofrer quem nada sente e ver partir quem ainda cá está. Já está. Agora foi.
2ª parte - Porque.
porque fui e vim e fui. E vim - que agora já cá estou. Fui com medo de ter que vir. E vim. Logo no dia a seguir.
Foi a pior viagem da minha vida. Com a pim-pim a chorar porque doía o ouvido de uma outite a vingar e ela ao meu lado, a chorar baixinho para a filha não ver mais do que as lágrimas que já tinha visto. 300 quilómetros de estrada à frente. 300 mil de dor moída; cá dentro. Foi um inferno.
Foi um inferno a viagem e a tarde de dizer adeus. Um rosto tapado. Uma noite de sono cansado. 5 meses a dormir com o telefone à cabeceira e nessa noite não.
5 meses a espaços de sono. E nessa noite não.
Foi um inferno a manhã seguinte.
E depois cheguei a casa e chorei tudo.
3ª parte - Isto vai em frente. Isto da vida, quero eu dizer.
Regressámos às férias. Numa paz que 5 dias antes não havia. Numa saudade imensa e numa mágoa instalada. Voltámos para as noites quentes a olhar o céu por cima do mundo. A procurar as estrelas e em particular aquela para quem a pim-pim manda "beijinho" todas as noites." É a avó, filha". E ela, com a cabecinha virada à noite manda beijinhos sem fim e diz na voz mais doce: "até manhã. do'mi bem"
4ª parte – A coisa. Esta coisa dos dias em que não estamos de férias.
Voltámos ao trabalho, à rotina. Ao trânsito das manhãs, ao Pedro Ribeiro e aos Caixilhos e Laminados. Voltámos a fazer a marginal - eu a pim-pim - a ver os barcos, as motas, os carros. Ela voltou à escola e gostou.
E muda tudo. Desde ontem, novo local, nova aventura. Nova equipa, novas pessoas, novos projectos. Nada é assim tão novo como isso. Conheço as pessoas, conheço os projectos, conheço a equipa. Os desafios nem tanto, mas às tantas é mesmo por isso que se chamam desafios.
Acho que a energia que tenho e a vontade de começar outra vez não disfarça o nervoso. É sempre novo. Mas vai ser bom. Até porque quando saímos há sempre uma palavra mais doce que nos deseja boa sorte, que nos diz quanto foi bom trabalhar em conjunto. É sempre bom ouvir isto. São festinhas no ego da gente.
E a gente gosta.
5ª parte - As palavras todas
Ainda tenho vontade de escrever como antes. Ainda me apetece agarrar no teclado minúsculo, olhar para o écran pequeno e debitar palavra atrás de palavra. Especialmente nestas noites em que tinha tantas guardadas aqui no bolso desta cabeça mal engomada.
Voltei aos medos e às paixões. Ao amor de sempre e à pim-pim de manhã à noite. Voltei aos amigos. Voltei para mim ao fim de algum, tempo.
E já tinha saudades minhas aqui agarrado à bic.
sábado, junho 24, 2006
quinta-feira, junho 22, 2006
segunda-feira, junho 19, 2006
Vai ser bonito
No sábado fomos a um casamento . À saída, a pim pim quis ir dar um beijo à noiva e na resposta de "mu'tas f'i'ichidades" recebeu um "eras a mais bonita da festa". Sim, ficámos um bocadinho babados.
Por estes dias a pim pim parece ter crescido. Se calhar fomos nós, não sei. Sei que na quinta feira passada a D. disse que, da sala dela, ela era a mais avançada na fala e se destacava dos outros também pela rapidez de raciocínio. É verdade que a bichinha é esperta e apanha tudo. É verdade que já canta grande parte do hino da Comercial para o Mundial e quando canto "Trinidad..." ela acaba ''Tinhidá e tomaguuuu". É verdade que uma das músicas preferidas (para além dos Noddys, Leopoldinas e Patinhos) é a música do "pam pam" - Love Generation de Bob Sinclair. Também é verdade que não resiste a Jack Johnson ou Nina Simone. É também igualmente verdade que acompanha o pai no "Sei-te de cor" do Paulo Gonzo ou no "Secretamente" da Rita Guerra. É dada a música, pronto. Mas não é só.
Nestas últimas semanas começou com o que os psicólogos chamam na gíria clínica de "as saídas". E são umas atrás das outras. Numa destas noites, depois do jantar, quando lhe perguntei se sabia que horas eram, respondeu prontamente a apontar para o pulso: "num chabe. num tem riloijo". Ou ontem de manhã, quando viu a mãe vestir uma t-shirt minha e lhe disse: "num pode visti echa camichola. é do papá"
Pela amostra, cheira-me que vamos ter aqui algum trabalho. Ou como dizem os psicólogos: "vai ser fresca". Mas não é por falta de atenção ao que nos têm dito. Até aquela história do "fazia-lhe falta era um irmãozinho" nós levámos a sério. Lá para fevereiro de 2007 se verá a reacção da pim pim. Também no que diz respeito a essa matéria ela já opinou: se for menino chama-se "manooo" e se for uma mana chamar-se-á "maninha". Vai ser bonito vai.
Por estes dias a pim pim parece ter crescido. Se calhar fomos nós, não sei. Sei que na quinta feira passada a D. disse que, da sala dela, ela era a mais avançada na fala e se destacava dos outros também pela rapidez de raciocínio. É verdade que a bichinha é esperta e apanha tudo. É verdade que já canta grande parte do hino da Comercial para o Mundial e quando canto "Trinidad..." ela acaba ''Tinhidá e tomaguuuu". É verdade que uma das músicas preferidas (para além dos Noddys, Leopoldinas e Patinhos) é a música do "pam pam" - Love Generation de Bob Sinclair. Também é verdade que não resiste a Jack Johnson ou Nina Simone. É também igualmente verdade que acompanha o pai no "Sei-te de cor" do Paulo Gonzo ou no "Secretamente" da Rita Guerra. É dada a música, pronto. Mas não é só.
Nestas últimas semanas começou com o que os psicólogos chamam na gíria clínica de "as saídas". E são umas atrás das outras. Numa destas noites, depois do jantar, quando lhe perguntei se sabia que horas eram, respondeu prontamente a apontar para o pulso: "num chabe. num tem riloijo". Ou ontem de manhã, quando viu a mãe vestir uma t-shirt minha e lhe disse: "num pode visti echa camichola. é do papá"
Pela amostra, cheira-me que vamos ter aqui algum trabalho. Ou como dizem os psicólogos: "vai ser fresca". Mas não é por falta de atenção ao que nos têm dito. Até aquela história do "fazia-lhe falta era um irmãozinho" nós levámos a sério. Lá para fevereiro de 2007 se verá a reacção da pim pim. Também no que diz respeito a essa matéria ela já opinou: se for menino chama-se "manooo" e se for uma mana chamar-se-á "maninha". Vai ser bonito vai.
terça-feira, junho 06, 2006
Declaração (pública) de Amor

Liguei para combinar um café – na esperança de não levar a segunda “nega” da semana. Tive sorte.
Fui buscar-te a casa depois de jantar e arrancámos para a Baixa. Era uma noite de Verão e havia muitas pessoas a passear. Sentámo-nos numa esplanada da Av. da Liberdade e ali estivemos à conversa. Desta vez só os dois. Desta vez éramos só nós.
“Vamos dar uma volta?”
Levantámo-nos e descemos.
Na Praça do Rossio, um telescópio. Era giro aquilo de ver estrelas.
Tu eras mais.
Seguimos. Dá a mão. Tira a mão. Dá a mão. Tira a mão.
"Hoje ainda te vou roubar um beijo".
Eu não sabia bem o que queria a não ser que queria um beijo teu. Queria porque eras linda.
E és.
Já não me lembro do que é que falámos. Mas falámos. E rimos.
A meio caminho perguntei:
“Tens mesmo de ir para casa?”
“Tenho mas não quero.”Já ganhei.
Virei tão rápido quanto pude. Encostei e saímos. Parecíamos duas crianças e estava calor nessa noite.
Lembro-me de entrar no carro, olhar para ti e como em todos os beijos, juntar a minha boca à tua.
Foi o primeiro beijo.
Foi o melhor.
Foi o melhor dessa noite.
Foi a primeira vez e não há beijo como o primeiro.
Saíste-me ao caminho numa noite de Junho e essa noite ainda a tenho cada vez que vejo a lua.
De repente olho para trás e dou por mim a dizer que te amo.
De repente olho para trás e dou por mim a pensar que quero e preciso e desejo que fiques para sempre comigo.
De repente olho para trás e temos uma filha linda.
De repente passaram 12 anos desde essa noite e cada dia contigo é sempre o melhor dia da minha vida.
Amo-te.
segunda-feira, junho 05, 2006
No seguimento

Hoje de manhã na marginal.
"Olha o barco grande filha"
"Não é g'ande"
"É sim filha, olha lá"
"Não. O b'aco não é g'ande"
"Oh filha olha lá..."
"....."
"Então é o quê? É pequenino?"
"Não."
"'Tás a ver. É grande."
"Não. É Castanho."
"....."
quarta-feira, maio 31, 2006
A pim-pim na bicla

Com a jinga, comprei uma cadeira. Daquelas para colocar atrás e que dá para levar as crianças. Foi a melhor compra que fiz nos últimos tempos. Passeio marítimo para cá, passeio marítimo para lá, vimos os b’aquinhos, os si’ores, o carro g’ande e rimos muito os dois. Ah! O capachete. Que pinta. Como a bicilceta da mãe estava esta’gada, fomos só os dois e mãe andou a passear a pé. “vamos à procura da mãe pim-pim?” “chim. Mamãããã; onde tá’is? Anda...”
Ficou prometido regressar.
E é já este fim de semana. Os 3 e em grande. Dia 4 de Junho, Marginal sem Carros de Oeiras a Algés. Vai ser a loucura
A jinga

Descobri hoje que estou para as bicicletas como estava há 4 anos para as consolas de jogos. Eu explico. Quando comprei a PS2 foi vindo directamente do 48k. Do Spectrum. Do que tinha jogos com cassetes que demoravam horas a entrar com aquele barulhinho, então irritante, e hoje capaz de soltar um sorriso.
E hoje fui comprar uma bicicleta.
Se aparentemente nada tem a ver uma coisa com a outra, vão já perceber a relação.
O 48k era básico, tinha aí umas 8 cores, gráficos que hoje qualquer apresentação de power point meteria no bolso e era bruto. Tal como as biclas. Eram duras, pesadas, não tinham mudanças, não tinham nada. Era um quadro, um volante e 2 rodas. Com sorte, uns travões dignos desse nome. Ora a bicicleta que comprei hoje não é nada disso. É leve o suficiente para sem esforço ser colocada em cima do carro, tem 24 mudanças, um assento não sei quê, um volante não sei que mais, suspensão dianteira, travões do raio que a parta e mais umas mariquices lá pelo meio que protegem qualquer coisa. Bem sei que devo ter feito uma figurinha ao perguntar ao Sr. se aquilo vinha com livro de instruções, mas pela resposta: não se preocupe que está tudo no livrinho, percebi que não devo ser o único. E não fiquem os Srs. leitores com a ideia que gastei uma fortuna na jinga (se calhar os mais novos não sabem o que é isto e acham que eu devo ter para aí uns 190 anos). Não amiguinhos. Tenho 34. E voltando à jinga, foi pelo preço perfeitamente aceitável que a trouxe para casa. Disse o Sr que era uma excelente relação qualidade/preço.
Anda, e isso é o que interessa. Agora que tive que ir dar uma leitura ao livrinho, lá isso tive. Só por via de dúvidas, não fosse aquilo desmontar-se na primeira curva.
segunda-feira, maio 22, 2006
Qué dumi’

Acordou a mãe, acordei eu, tomámos banho. O biberão já estava quente, os estores abertos e os rádios do quarto e da casa de banho com “as manhãs da comercial” no ar.
Tudo dentro da normalidade de uma manhã de dia de semana. Tudo excepto a pim-pim? A pim-pim, de papo para o ar na sua caminha e de chucha na boca teimava em não se levantar.
- Queres beber o leite aqui ou na cama do pai?
- Num qué.
- Não queres o quê amor?
- Num qué bibê o lêti. Qué dumi’.
- Oh filha, mas o pai tem que ir trabalhar, tu tens que beber o leitinho para depois mudar a fralda e vestir e irmos para a escola.
- Num qué. Qué dumi’
- Oh filha, vá.
A muito custo lá se sentou e bebeu o leite.
E tudo mudou.
- A pim-pim qué b’incá. Pode? Pode?
- Podes sim filha.
- A mamã?
- A mamã foi trabalhar.
- Esc’itóio?
- Sim filha. A mamã foi para o escritório.
A caminho da escola, cantámos, rimos, vimos os barquinho e as motas “g’andes”.
É um doce a minha pim-pim. Um doce.
Mesmo quando custa mais um bocadinho a sair da cama.
quarta-feira, maio 17, 2006
A birra

Nunca o trajecto de elevador entre o 7º andar e a garagem no –3 foi tão longo. 12 longos minutos e uma birra de que não há memória. Arrastou-se pelo chão, esperneou, gritou, berrou, babou-se. E depois de a consegui sentar na cadeirinha – a muito custo – e de lhe ter limpo as lágrimas e assoado o ranho e tirado a baba e de lhe ter dado meia dúzia de beijos, acalmou-se. Passámos, portanto, de um histerismo-louco-furioso para uma acalmia-catatónica. Eu sei que são 2 anos, 1 mês, 1 semana e 1 dia. Eu sei que não tenho uma filha birrenta e que se porta lindamente e que come e dorme como um anjo – o dormir é que é como um anjo, que o comer é mais como o diabo. Come bem a bichinha.
Eu sei que é tempo de tudo isto acontecer.
Mas no fundo o que me irrita não é a birra, o tempo que não se tem de manhã para poder calmamente conversar e levar a coisa a bem. O que me irrita são os nervos com que ela fica. O soluçar, o olhar no vazio.
Vimos o mar – que a deve ter acalmado um bocadinho – e num semáforo, depois de várias “negas”, lá consegui faze-la rir. E riu muito.
Chegámos ao colégio e, como sempre, lá foi. Sem choros. Deu um beijo ao pai e foi brincar.
E o pai foi para a reunião para a qual estava a ver que não chegava a tempo. Mas cheguei. Quem não chegou foram os Srs. que vinham para a reunião. Ligaram a dizer que estavam “atrasados”. Atrasado estava eu que cheguei às 9 e 25 para um compromisso às 9 e meia. Eles – que são quase meia dia e ainda não apareceram – é que estão atrasados. Não fossem gajos importantes e iam ver a birra. Até já sei como é que se faz.
quarta-feira, maio 10, 2006

Este espaço foi ocupado - ainda nem há um minuto - por meia dúzia de palavras tristes. Metáforas saídas sem força para dizer apenas do quanto a admiro e do quanto admiro a sua coragem. Preferi apagar tudo e dizer coisas felizes.
Antes das palavras e destes minutos de pé aqui na cozinha, fui ver a pim-pim (como sempre faço várias vezes ante de me deitar). E como sempre, ali estava ela, serena - como só os bebés são serenos, tranquila e completamente virada do avesso - como a minha filha faz tão bem. Pu-la direita, tapei-a e perdi-me alguns minutos a observá-la. A sua respiração, a posição das mãos, os cabelos pela cara abaixo. Perdi-me naquela incomensurável beleza. Nestas alturas, assola-me um desejo - que obviamente reprimo - de a levantar e pegá-la ao colo. Sentir o seu corpinho pequenino encostado ao meu. Sentir o seu ajeitar no meu peito, a sua procura de ninho. Sentir o seu calor. Dar-lhe beijos sem fim e dar-lhe aquele abraço apertado como ela me faz antes de a deitar. Apertado que dói de tanto que a amo. Sorrio sempre quando me lembro que horas antes, numa qualquer brincadeira com a mãe ou comigo, soltava as suas pequeninas gargalhadas e repetia: out'a vech. "Outra vez" todos os dias filha. O pai e a mãe vão amar-te outra e outra vez todos os dias. Dorme bem pim-pim.
Elizabethtown - parte II

Apetece viver mais. Dar importância às pessoas. Ouvir cada palavra e perceber cada gesto. Tirar o melhor do melhor que alguém tem para nos dar. Apetece-me olhar para a minha filha e desejar ainda mais vê-la crescer. Apetece não deixar nenhuma viagem por fazer, nenhuma palavra por dizer. Apetece lembrar para sempre isto tudo e acima de tudo, apetece ter vontade de não esquecer nada disto.
Fosse a vida assim tão simples. E se calhar é.
Se alguém souber onde é que se arranja o mapa da Claire que apite.
Obrigado NG
De memória:
Tinha mesmo que escrever isto
sexta-feira, maio 05, 2006
500
Já tive 500 visitas cá em casa. Nem todas se sentaram para beber café, fumar um cigarro à varanda ou ver um filme. Poucos vieram e ficaram para jantar. Poucos apareceram de surpresa. A verdade é que já somam o grande número 500. Talvez não tenha dado a todos a devida atenção mas nem por isso gosto menos que venham. Continuem. E obrigado.
quarta-feira, maio 03, 2006
da varanda

da varanda vejo o mar. vejo a entrada da barra do tejo, os barcos que entram e saem e as histórias que levam e trazem.
da varanda vejo o sol e à noite a lua. cheia quando está, encoberta ou fora de alcance.
da varanda vejo o infindável céu. vejo aviões que dia adentro e noite afora rasgam as nuvens sempre que as há lá no alto.
da varanda vejo o combóio cujo grito metálico emudece os cães e os gatos e as pessoas.
da varanda vejo todo este mundo dia após dia.
não vale nada esta vista.prefiro mil vezes o reflexo do teu olhar numa onda pequenina ou o riso contagiante da pim-pim numa corrida.
De memória:
Tinha mesmo que escrever isto
quarta-feira, abril 19, 2006
As coisas como elas são

Muitas vezes advoguei que a desculpa do “sou assim” como argumento último de não mudar era uma desculpa falaciosa. Era – e é – só uma desculpa para não fazermos um esforço para mudar, para inverter o sentido de algumas coisas e para “deixar estar”.
A verdade é que, se há muitas coisas que podemos – com mais ou menos esforço – mudar, há outras que pura e simplesmente não podem ser alteradas. Por muito que se queira, que se deseje. Por muita força que façamos, por muito pensamento positivo ou boas vibrações que queiramos provocar, há coisas que são como são. Como a finitude da vida. É imutável, inegável e não é há volta a dar. É assim porque é assim.
Se há coisas que são como são, esta é uma delas.
______________________
Ao fim de um tempo, por muito que não se queira, começa a impregnar-se o hábito. Entra no ritual de todos os dias vê-la assim. Frágil, magra, doente. Não que pareça que sempre foi assim – porque nunca o foi – mas não custa tanto como da primeira vez.
Ao mesmo tempo – apesar de toda a consciência – começamos lentamente a pensar se algo não terá mudado? Se não haverá volta a dar? Se o fim é mesmo agora ou um bocado mais tarde? Se por um acaso clínico-químico não terá despoletado uma reacção qualquer que faça inverter e/ou estabilizar as coisas?
As coisas como elas são nem sempre são como nós queríamos que fossem. Mas é assim que elas são. É assim.
quarta-feira, abril 12, 2006
ignorance is bliss

Já aqui diversas vezes se elogiou o banal. Curiosamente, foi sempre a propósito do mesmo tema: a pim-pim. Provavelmente é a inocência das crianças que nos leva ao mais puro dos olhares, mas não é só. São também as histórias menos felizes, as desilusões, os reveses da vida. E é disso, é sobre isso que me apetece falar. Não sobre as agruras, as desilusões ou os reveses, mas sim sobre o que isso nos pode ensinar. Melhor; sobre o que isso me pode ensinar.
Às vezes são as coisas mais pequenas as que mais nos obrigam a olhar para isto tudo com outros olhos.
São as mãos dela encostadas ao rosto quando dorme, os dedos pequenos dobrados numa paz tranquila e tranquilizante. E são as mãos da mãe. São iguais. É o doce cheiro da pim-pim a seguir ao banho - e esse é único. Faz-me pensar no quanto vale a pena esta rendição diária em prol de um carro, de uma casa com vista para o mar e de milhas e mais milhas no passaporte. e depois há sempre aquela ideia do Alentejo. Quente e despovoado. Puro. Feito de rugas e tempo e mais tempo. Há sempre a vontade de ir e deixar para trás isto tudo.
Gradualmente cresce em mim uma vontade de ter mais tempo para ver crescer a minha filha em detrimento da conta bancária.
Ver as flores, as nuvens. Olhar para o céu sem parecer um doido no meio de uma avenida a olhar para o ar. Não é só o ar. É o tempo todo do mundo numa nesga de sol.
Às vezes dá vontade de parar tudo e deixar o olhar percorrer para lá da janela o mundo todo sem ter que acabar de o ver à pressa para se mandar um e-mail e ligar ao cliente simpático que nos vai dizer banalidades que não queremos ouvir. Até porque nem temos tempo. às tantas o homem até tem algo de interessante para dizer. Mas eu não tenho tempo. Quero chegar a casa cedo para brincar um bocadinho com a princesa antes que a mãe nos mande ir tomar banho. Quero ter tempo para dois abraços grandes e apertados. Para dizer amo-te a uma e amo-te a outra. Em tempos diferentes. Cada uma a seu tempo, a seu ritmo próprio. Isto em vez de um amo-te muito - de fugida - com a mais pequena ao colo com ciúmes do beijo que dei à mãe.
Não consigo dormir mais de 6 horas por dia. Sinto sempre que há mais alguma coisa a pensar, a escrever, a programar, a ver. Há mais um pedaço de informação que pode fazer falta. Mais um cigarro para fumar à varanda. Mais dois barcos que se cruzam na barra do Tejo. Quem vai lá? Quantos são? São felizes? Vêm de onde? Para onde é que vão? Há sempre um turbilhão de ideias para pôr no papel, para escrever no [ai-dia], no bic cristal. Há sempre um milhão de páginas por abrir na Internet. Pessoas e mais pessoas que cruzam os olhos com os meus e outras tantas que nem sequer me viram passar. que história terão para contar? que histórias lhes vão na cabeça? Com o que é que sonham? Percebem o mundo como eu? Vendem-se como eu? O que é que querem?
Passo por ti na auto-estrada. És tu? Podias ser sabias? Nós não nos conhecemos. Não sabemos quem somos. Estes todos que aqui andamos. Vamos aqui deixando lágrimas e suspiros. Sorrisos e gritos surdos que acabamos por nunca dar. Qual é o preço disto tudo afinal? Desta falta de mimo latente, crescente; quanto custa isto tudo? Quanto nos custa? Há quanto tempo não olhas lá para fora e te deixas levar por uma estrela? Quantas vezes não te apeteceu já parar o carro na marginal para ver o sol pôr-se ao longe? Gozar só uma vez aquele bocadinho de magia? Não perder os olhos nos carros da frente e nos de trás. Quantas vezes te apetecia acordar cedo para beberes o dia todo? Sorver cada gota de sol? Abraçar cada pedaço de vento? Quantas?
Cada folha de árvore seca é uma vida que já foi forte e que acabou. Cada pedra que cabe na palma da tua mão já foi um bocadinho do mundo.
Há quanto tempo não vês as flores?
segunda-feira, abril 10, 2006
Doich

Sábado, 8 de abril. A pim-pim faz dois anos. Uma semana de telefonemas, reservas, cattering. Escolhe o menú de x euros. Escolhe o outro. Afinal não vale a pena que os putos não comem tanto como isso. Afinal comem. E animadores, há? Há. Pinturas faciais e escultura em balões. E o espaço? É giro? Tem uma piscina com bolas e escorrega e labirintos e bolas gigantes e tem sol. De manhã? De tarde? É melhor de manhã. É sempre melhor de manhã para dormir a sesta à tarde. E será que vai dormir com a excitação? Mas tentamos.
Faz-se o convite, manda-se por e-mail. Não recebeste? Oh pá, eu mando outra vez. Não recebeste outra vez? Então pronto, é sábado a partir das 10 e meia. Sabes onde é? Se te perderes liga.
E chega sábado. A pim-pim acorda. Eu e a mãe fazemos a festa. Ela ri-se. Quantos anos fazes filha? Doich. Boa amor. Parabéns. Lêti. A mãe vai aquecer o leite. Vá filha, papa. Vamos para a festa.
Mas ainda falta ir buscar o bolo e as velas e os sacos para as prendas dos putos. E mais? Não falta nada. A caminho toca o telefone. Já chegaste? Não, ‘tamos quase. Há quem chegue antes mesmo da aniversariante. Mas é uma festa de putos e o protocolo ficou - de comum acordo - na gaveta. Ninguém liga. Os putos chegam e chegam e chegam. O volume aumenta. Os balões voam pelo ar. As bolas da piscina também. É a loucura. Há saltos para a piscina de fazer arrepiar o mais desprendido dos pais. Razias monumentais. Os pães de leite chegam? E os croquetes? É melhor pedir mais. Mais uma prenda e mais uma prenda e mais outra e esta que gira. Munto gi’o.
A festa acabou. Estamos nós mais de restos do que ela. Ela, aliás, nem sequer dorme a sesta.
Quando se tem um sorriso destes permanente, vale mesmo a pena.
Fazemos outra amanhã? Chim. Tonta. Agora só para o ano filha.
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