quarta-feira, maio 31, 2006

A pim-pim na bicla



Com a jinga, comprei uma cadeira. Daquelas para colocar atrás e que dá para levar as crianças. Foi a melhor compra que fiz nos últimos tempos. Passeio marítimo para cá, passeio marítimo para lá, vimos os b’aquinhos, os si’ores, o carro g’ande e rimos muito os dois. Ah! O capachete. Que pinta. Como a bicilceta da mãe estava esta’gada, fomos só os dois e mãe andou a passear a pé. “vamos à procura da mãe pim-pim?” “chim. Mamãããã; onde tá’is? Anda...”
Ficou prometido regressar.
E é já este fim de semana. Os 3 e em grande. Dia 4 de Junho, Marginal sem Carros de Oeiras a Algés. Vai ser a loucura

A jinga



Descobri hoje que estou para as bicicletas como estava há 4 anos para as consolas de jogos. Eu explico. Quando comprei a PS2 foi vindo directamente do 48k. Do Spectrum. Do que tinha jogos com cassetes que demoravam horas a entrar com aquele barulhinho, então irritante, e hoje capaz de soltar um sorriso.

E hoje fui comprar uma bicicleta.

Se aparentemente nada tem a ver uma coisa com a outra, vão já perceber a relação.
O 48k era básico, tinha aí umas 8 cores, gráficos que hoje qualquer apresentação de power point meteria no bolso e era bruto. Tal como as biclas. Eram duras, pesadas, não tinham mudanças, não tinham nada. Era um quadro, um volante e 2 rodas. Com sorte, uns travões dignos desse nome. Ora a bicicleta que comprei hoje não é nada disso. É leve o suficiente para sem esforço ser colocada em cima do carro, tem 24 mudanças, um assento não sei quê, um volante não sei que mais, suspensão dianteira, travões do raio que a parta e mais umas mariquices lá pelo meio que protegem qualquer coisa. Bem sei que devo ter feito uma figurinha ao perguntar ao Sr. se aquilo vinha com livro de instruções, mas pela resposta: não se preocupe que está tudo no livrinho, percebi que não devo ser o único. E não fiquem os Srs. leitores com a ideia que gastei uma fortuna na jinga (se calhar os mais novos não sabem o que é isto e acham que eu devo ter para aí uns 190 anos). Não amiguinhos. Tenho 34. E voltando à jinga, foi pelo preço perfeitamente aceitável que a trouxe para casa. Disse o Sr que era uma excelente relação qualidade/preço.
Anda, e isso é o que interessa. Agora que tive que ir dar uma leitura ao livrinho, lá isso tive. Só por via de dúvidas, não fosse aquilo desmontar-se na primeira curva.

segunda-feira, maio 22, 2006

Qué dumi’


Acordou a mãe, acordei eu, tomámos banho. O biberão já estava quente, os estores abertos e os rádios do quarto e da casa de banho com “as manhãs da comercial” no ar.
Tudo dentro da normalidade de uma manhã de dia de semana. Tudo excepto a pim-pim? A pim-pim, de papo para o ar na sua caminha e de chucha na boca teimava em não se levantar.
- Queres beber o leite aqui ou na cama do pai?
- Num qué.
- Não queres o quê amor?
- Num qué bibê o lêti. Qué dumi’.
- Oh filha, mas o pai tem que ir trabalhar, tu tens que beber o leitinho para depois mudar a fralda e vestir e irmos para a escola.
- Num qué. Qué dumi’
- Oh filha, vá.
A muito custo lá se sentou e bebeu o leite.
E tudo mudou.
- A pim-pim qué b’incá. Pode? Pode?
- Podes sim filha.
- A mamã?
- A mamã foi trabalhar.
- Esc’itóio?
- Sim filha. A mamã foi para o escritório.
A caminho da escola, cantámos, rimos, vimos os barquinho e as motas “g’andes”.

É um doce a minha pim-pim. Um doce.
Mesmo quando custa mais um bocadinho a sair da cama.

quarta-feira, maio 17, 2006

A birra


Nunca o trajecto de elevador entre o 7º andar e a garagem no –3 foi tão longo. 12 longos minutos e uma birra de que não há memória. Arrastou-se pelo chão, esperneou, gritou, berrou, babou-se. E depois de a consegui sentar na cadeirinha – a muito custo – e de lhe ter limpo as lágrimas e assoado o ranho e tirado a baba e de lhe ter dado meia dúzia de beijos, acalmou-se. Passámos, portanto, de um histerismo-louco-furioso para uma acalmia-catatónica. Eu sei que são 2 anos, 1 mês, 1 semana e 1 dia. Eu sei que não tenho uma filha birrenta e que se porta lindamente e que come e dorme como um anjo – o dormir é que é como um anjo, que o comer é mais como o diabo. Come bem a bichinha.
Eu sei que é tempo de tudo isto acontecer.
Mas no fundo o que me irrita não é a birra, o tempo que não se tem de manhã para poder calmamente conversar e levar a coisa a bem. O que me irrita são os nervos com que ela fica. O soluçar, o olhar no vazio.
Vimos o mar – que a deve ter acalmado um bocadinho – e num semáforo, depois de várias “negas”, lá consegui faze-la rir. E riu muito.
Chegámos ao colégio e, como sempre, lá foi. Sem choros. Deu um beijo ao pai e foi brincar.

E o pai foi para a reunião para a qual estava a ver que não chegava a tempo. Mas cheguei. Quem não chegou foram os Srs. que vinham para a reunião. Ligaram a dizer que estavam “atrasados”. Atrasado estava eu que cheguei às 9 e 25 para um compromisso às 9 e meia. Eles – que são quase meia dia e ainda não apareceram – é que estão atrasados. Não fossem gajos importantes e iam ver a birra. Até já sei como é que se faz.

quarta-feira, maio 10, 2006


Este espaço foi ocupado - ainda nem há um minuto - por meia dúzia de palavras tristes. Metáforas saídas sem força para dizer apenas do quanto a admiro e do quanto admiro a sua coragem. Preferi apagar tudo e dizer coisas felizes.
Antes das palavras e destes minutos de pé aqui na cozinha, fui ver a pim-pim (como sempre faço várias vezes ante de me deitar). E como sempre, ali estava ela, serena - como só os bebés são serenos, tranquila e completamente virada do avesso - como a minha filha faz tão bem. Pu-la direita, tapei-a e perdi-me alguns minutos a observá-la. A sua respiração, a posição das mãos, os cabelos pela cara abaixo. Perdi-me naquela incomensurável beleza. Nestas alturas, assola-me um desejo - que obviamente reprimo - de a levantar e pegá-la ao colo. Sentir o seu corpinho pequenino encostado ao meu. Sentir o seu ajeitar no meu peito, a sua procura de ninho. Sentir o seu calor. Dar-lhe beijos sem fim e dar-lhe aquele abraço apertado como ela me faz antes de a deitar. Apertado que dói de tanto que a amo. Sorrio sempre quando me lembro que horas antes, numa qualquer brincadeira com a mãe ou comigo, soltava as suas pequeninas gargalhadas e repetia: out'a vech. "Outra vez" todos os dias filha. O pai e a mãe vão amar-te outra e outra vez todos os dias. Dorme bem pim-pim.

Elizabethtown - parte II


Apetece viver mais. Dar importância às pessoas. Ouvir cada palavra e perceber cada gesto. Tirar o melhor do melhor que alguém tem para nos dar. Apetece-me olhar para a minha filha e desejar ainda mais vê-la crescer. Apetece não deixar nenhuma viagem por fazer, nenhuma palavra por dizer. Apetece lembrar para sempre isto tudo e acima de tudo, apetece ter vontade de não esquecer nada disto.
Fosse a vida assim tão simples. E se calhar é.

Se alguém souber onde é que se arranja o mapa da Claire que apite.
Obrigado NG

sexta-feira, maio 05, 2006

500

Já tive 500 visitas cá em casa. Nem todas se sentaram para beber café, fumar um cigarro à varanda ou ver um filme. Poucos vieram e ficaram para jantar. Poucos apareceram de surpresa. A verdade é que já somam o grande número 500. Talvez não tenha dado a todos a devida atenção mas nem por isso gosto menos que venham. Continuem. E obrigado.

quarta-feira, maio 03, 2006

da varanda


da varanda vejo o mar. vejo a entrada da barra do tejo, os barcos que entram e saem e as histórias que levam e trazem.
da varanda vejo o sol e à noite a lua. cheia quando está, encoberta ou fora de alcance.
da varanda vejo o infindável céu. vejo aviões que dia adentro e noite afora rasgam as nuvens sempre que as há lá no alto.
da varanda vejo o combóio cujo grito metálico emudece os cães e os gatos e as pessoas.
da varanda vejo todo este mundo dia após dia.

não vale nada esta vista.prefiro mil vezes o reflexo do teu olhar numa onda pequenina ou o riso contagiante da pim-pim numa corrida.

quarta-feira, abril 19, 2006

As coisas como elas são


Muitas vezes advoguei que a desculpa do “sou assim” como argumento último de não mudar era uma desculpa falaciosa. Era – e é – só uma desculpa para não fazermos um esforço para mudar, para inverter o sentido de algumas coisas e para “deixar estar”.
A verdade é que, se há muitas coisas que podemos – com mais ou menos esforço – mudar, há outras que pura e simplesmente não podem ser alteradas. Por muito que se queira, que se deseje. Por muita força que façamos, por muito pensamento positivo ou boas vibrações que queiramos provocar, há coisas que são como são. Como a finitude da vida. É imutável, inegável e não é há volta a dar. É assim porque é assim.
Se há coisas que são como são, esta é uma delas.
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Ao fim de um tempo, por muito que não se queira, começa a impregnar-se o hábito. Entra no ritual de todos os dias vê-la assim. Frágil, magra, doente. Não que pareça que sempre foi assim – porque nunca o foi – mas não custa tanto como da primeira vez.
Ao mesmo tempo – apesar de toda a consciência – começamos lentamente a pensar se algo não terá mudado? Se não haverá volta a dar? Se o fim é mesmo agora ou um bocado mais tarde? Se por um acaso clínico-químico não terá despoletado uma reacção qualquer que faça inverter e/ou estabilizar as coisas?

As coisas como elas são nem sempre são como nós queríamos que fossem. Mas é assim que elas são. É assim.

quarta-feira, abril 12, 2006

ignorance is bliss


aqui diversas vezes se elogiou o banal. Curiosamente, foi sempre a propósito do mesmo tema: a pim-pim. Provavelmente é a inocência das crianças que nos leva ao mais puro dos olhares, mas não é só. São também as histórias menos felizes, as desilusões, os reveses da vida. E é disso, é sobre isso que me apetece falar. Não sobre as agruras, as desilusões ou os reveses, mas sim sobre o que isso nos pode ensinar. Melhor; sobre o que isso me pode ensinar.

Às vezes são as coisas mais pequenas as que mais nos obrigam a olhar para isto tudo com outros olhos.
São as mãos dela encostadas ao rosto quando dorme, os dedos pequenos dobrados numa paz tranquila e tranquilizante. E são as mãos da mãe. São iguais. É o doce cheiro da pim-pim a seguir ao banho - e esse é único. Faz-me pensar no quanto vale a pena esta rendição diária em prol de um carro, de uma casa com vista para o mar e de milhas e mais milhas no passaporte. e depois há sempre aquela ideia do Alentejo. Quente e despovoado. Puro. Feito de rugas e tempo e mais tempo. Há sempre a vontade de ir e deixar para trás isto tudo.

Gradualmente cresce em mim uma vontade de ter mais tempo para ver crescer a minha filha em detrimento da conta bancária.
Ver as flores, as nuvens. Olhar para o céu sem parecer um doido no meio de uma avenida a olhar para o ar. Não é só o ar. É o tempo todo do mundo numa nesga de sol.
Às vezes dá vontade de parar tudo e deixar o olhar percorrer para lá da janela o mundo todo sem ter que acabar de o ver à pressa para se mandar um e-mail e ligar ao cliente simpático que nos vai dizer banalidades que não queremos ouvir. Até porque nem temos tempo. às tantas o homem até tem algo de interessante para dizer. Mas eu não tenho tempo. Quero chegar a casa cedo para brincar um bocadinho com a princesa antes que a mãe nos mande ir tomar banho. Quero ter tempo para dois abraços grandes e apertados. Para dizer amo-te a uma e amo-te a outra. Em tempos diferentes. Cada uma a seu tempo, a seu ritmo próprio. Isto em vez de um amo-te muito - de fugida - com a mais pequena ao colo com ciúmes do beijo que dei à mãe.

Não consigo dormir mais de 6 horas por dia. Sinto sempre que há mais alguma coisa a pensar, a escrever, a programar, a ver. Há mais um pedaço de informação que pode fazer falta. Mais um cigarro para fumar à varanda. Mais dois barcos que se cruzam na barra do Tejo. Quem vai lá? Quantos são? São felizes? Vêm de onde? Para onde é que vão? Há sempre um turbilhão de ideias para pôr no papel, para escrever no [ai-dia], no bic cristal. Há sempre um milhão de páginas por abrir na Internet. Pessoas e mais pessoas que cruzam os olhos com os meus e outras tantas que nem sequer me viram passar. que história terão para contar? que histórias lhes vão na cabeça? Com o que é que sonham? Percebem o mundo como eu? Vendem-se como eu? O que é que querem?

Passo por ti na auto-estrada. És tu? Podias ser sabias? Nós não nos conhecemos. Não sabemos quem somos. Estes todos que aqui andamos. Vamos aqui deixando lágrimas e suspiros. Sorrisos e gritos surdos que acabamos por nunca dar. Qual é o preço disto tudo afinal? Desta falta de mimo latente, crescente; quanto custa isto tudo? Quanto nos custa? Há quanto tempo não olhas lá para fora e te deixas levar por uma estrela? Quantas vezes não te apeteceu já parar o carro na marginal para ver o sol pôr-se ao longe? Gozar só uma vez aquele bocadinho de magia? Não perder os olhos nos carros da frente e nos de trás. Quantas vezes te apetecia acordar cedo para beberes o dia todo? Sorver cada gota de sol? Abraçar cada pedaço de vento? Quantas?

Cada folha de árvore seca é uma vida que já foi forte e que acabou. Cada pedra que cabe na palma da tua mão já foi um bocadinho do mundo.
Há quanto tempo não vês as flores?

segunda-feira, abril 10, 2006

Doich


Sábado, 8 de abril. A pim-pim faz dois anos. Uma semana de telefonemas, reservas, cattering. Escolhe o menú de x euros. Escolhe o outro. Afinal não vale a pena que os putos não comem tanto como isso. Afinal comem. E animadores, há? Há. Pinturas faciais e escultura em balões. E o espaço? É giro? Tem uma piscina com bolas e escorrega e labirintos e bolas gigantes e tem sol. De manhã? De tarde? É melhor de manhã. É sempre melhor de manhã para dormir a sesta à tarde. E será que vai dormir com a excitação? Mas tentamos.
Faz-se o convite, manda-se por e-mail. Não recebeste? Oh pá, eu mando outra vez. Não recebeste outra vez? Então pronto, é sábado a partir das 10 e meia. Sabes onde é? Se te perderes liga.
E chega sábado. A pim-pim acorda. Eu e a mãe fazemos a festa. Ela ri-se. Quantos anos fazes filha? Doich. Boa amor. Parabéns. Lêti. A mãe vai aquecer o leite. Vá filha, papa. Vamos para a festa.
Mas ainda falta ir buscar o bolo e as velas e os sacos para as prendas dos putos. E mais? Não falta nada. A caminho toca o telefone. Já chegaste? Não, ‘tamos quase. Há quem chegue antes mesmo da aniversariante. Mas é uma festa de putos e o protocolo ficou - de comum acordo - na gaveta. Ninguém liga. Os putos chegam e chegam e chegam. O volume aumenta. Os balões voam pelo ar. As bolas da piscina também. É a loucura. Há saltos para a piscina de fazer arrepiar o mais desprendido dos pais. Razias monumentais. Os pães de leite chegam? E os croquetes? É melhor pedir mais. Mais uma prenda e mais uma prenda e mais outra e esta que gira. Munto gi’o.
A festa acabou. Estamos nós mais de restos do que ela. Ela, aliás, nem sequer dorme a sesta.
Quando se tem um sorriso destes permanente, vale mesmo a pena.


Fazemos outra amanhã? Chim. Tonta. Agora só para o ano filha.

sexta-feira, março 31, 2006

-

No fundo, esta é a grande injustiça desta doença: faz com que tenhamos saudades das pessoas antes de as perdermos. Faz com que recordemos tudo o que de bom guardamos antes da altura certa. Sentimos a falta que nos fazem quando ainda estão presentes. Precisamos delas quando ainda estão sem estar disponíveis. Precisamos mais do que nunca de as ver quando já não conseguimos encará-las de frente e conter as lágrimas.
E eu que nunca como agora preciso de chorar e não posso. Estou tão cansado. Dói-me o corpo todo de olhar para ti, ver-te desvanecer e não poder fazer nada para te agarrar. Nem eu nem ninguém.
Só que devia ser eu a poder dar-te a mão. Devia e tinha que o fazer, mas é impossível entrar em ti.
Quando percebi que existias e te comecei a conhecer, disse-te um dia que podias largar essa capa de durona inatingível que usavas, que eu iria estar sempre lá para ti. Disse-te que te protegeria, que tomaria as tuas dores. Disse-te e prometi a mim mesmo que o faria. E até hoje nunca faltei com a minha palavra. Nunca.
E hoje tu pediste-me para fazer alguma coisa que não a querias perder e a única coisa que eu te consegui dizer foi que o faria se pudesse. E não posso. A verdade é que não posso. E o facto de o não poder fazer também dói. Queria tanto dar-te um beijo como dou à filha e dizer: já passou. Mas não passa. Nem um milhão de beijos. Já não tens a inocência da nossa princesa e agora quando dói por dentro não há beijo que cure, não há beijo que sare. Eu sei que dói quando se ama e se vê alguém sofrer. Sei que dói e muito. Mas não sei o que é perder quem nos deu vida, quem nos deu colo. Não sei o que é perder quem nos tratou as feridas, mesmo aquelas que se tratavam só com um beijo.

quarta-feira, março 29, 2006

Posso / Não Posso

Já não vamos ou ao cinema tantas vezes como antes. Já não vamos jantar fora sempre que nos apetece. Já não tiramos 2 noites para ir, simplesmente. Já não posso abrir a janela do carro numa noite como a de hoje e ir até onde a música me levar. Já não posso aceitar os convites todos para todos os jantares. Já não posso pôr a música alto quando me apetece. Já não podemos passar uma semana fora sem horários. Já não podemos ir passear à noite para a praia até que nos apeteça.
Há muita coisa que não podemos fazer, mas podemos esperar que amanhã ela acorde com aquele sorriso lindo, o cabelo à frente dos olhos e diga: Olá. Bom dia filha. Vamos acordar a mamã?

sábado, março 25, 2006

por nada

és o meu D. quixote de saias que em vez de lutar contra moinhos de vento, tenta a cada minuto derrotar castelos de dor.

sexta-feira, março 17, 2006

Este meu dia


Chovia de manhã quando fui à janela. Saí do banho e ainda com o toalhão enrolado à cintura espreitei a varanda e ao longe, a ondulação forte fazia levantar os barcos ancorados. “que merda de dia” pensei. Voltei ao quarto para me vestir. Em cima da cama, a minha princesinha acabava o seu biberão de leite. Um sorrisinho maroto seguido de um “nã qué maich”. “Queres ir para o chão?” “Chim”. Até parece que é das beiras, mas não é. Tem é 2 anos para fazer no mês que vem e uma chucha colada à boca. Percebe-se o que quer dizer e isso é o mais importante.
Depois da fralda mudada e de vestida, arrancamos para o colégio. “Olhó o mar filha...” “baquinhos” diz ela. “São os barcos sim”. chegamos. Abracinho ao pai. Beijinho ao pai. Até alogo amor. “chau”.
Para um dia que prometia ser mau como o diabo, o sol brilha cá com uma força. Até queima de bom.

terça-feira, março 07, 2006

Próxima Estação: Estação Terminal


Fez o caminho que outros já tinham feito e era a esta altura, uma mulher feliz. Tinha 2 filhas lindas, já mulheres, e 3 netas de cortar a respiração. A mais velha – ainda sem ter 2 anos feitos – e as gémeas – com menos um ano – faziam as delícias da jovem avó. Tinham sido todas uma luz que se acendera dentro dela. A par das suas filhas e dos pais – ainda vivos – as princesas eram a sua luz e os “tão lindas” repetiam-se a cada visita, a cada gesto.
Era para elas que dirigia a sua atenção e eram elas – tão pequeninas – que a faziam levar um pesado barco para a frente. Mas ia.
Como tantas outras mulheres, tinha enfrentado um divórcio penoso e difícil e como tantas outras mulheres tinha conseguido sair do negro buraco da solidão.
Levava a vida por objectivos e apontava a direito rumo às metas. Uma viagem, uma cozinha nova, uma casa de fim de semana. Tudo metas que atingira com esforço e com trabalho mas onde orgulhosamente chegara.
A viagem fizera-se como qualquer viagem. Com altos e baixos, mudanças de estação, confortos e desconfortos, agrados e desagrados. Fizera a sua viagem com discussões, chatices, indisposições. Acima de tudo, fizera a viagem com a consciência de uma boa mãe e a devoção de uma boa filha. Norteara por aí o seu caminho e não falhara.
Feliz ao seu modo e timidamente sociável conhecera algumas carruagens para além da sua. Por curiosidade e desmedida vontade de aprender, agarra-se à pintura com carinho e ostentava com orgulho as suas obras. Perdia horas e reproduzir uma fotografia que achava “bonita”. E finda a tarefa, mostrava-a a toda a gente. “Já viste o meu quadro novo?” e entrava uma neta em cena: “tão linda”.
Eram estes os seus dias mais recentes. Por entre uma ida ao ginásio e as tarefas normais de uma jovem-avó-reformada-ama-das-netas, ainda arranjava tempo e paciência para um jantar com amigos, um passeio de fim de semana, uma ida ao Alentejo.
Por altura do natal, o tempo frio e uma súbita perda de apetite fê-la ir abaixo e temer uma nova operação.
Maldito bicho que teimava em formar-se no corpo com uma cadência estupidamente ritmada e que fazia soar os alarmes de ano a ano.
Mais uma vez, viu-se na injusta rotina de exames repetidos vezes sem conta e diagnósticos que já sabia na ponta da língua. “temos que operar”. Mas desta vez foi diferente. Não foi possível tirar o bicho fora. Não foi possível mudar de carruagem e seguir viagem.
Guinchou no desvio e magoou toda a gente à volta. Fez mossa.
Apagaram-se as luzes da esperança, da vontade, da vida.
A meio caminho da estação com correspondência com “Mais Tempo”, desviou-se o combóio para a Estação Terminal.

Apesar de tudo, a viagem tinha sido boa.

Boa Viagem. Vai com cuidado.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Luz


A marginal de manhã tem sempre um brilho diferente. Tem luz tem mar. Tem o silêncio das ondas calmas que se vêm ao longe e os barcos que entram e saem da barra.
A marginal de manhã tem luz. E perdura todo o dia nos meus olhos.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

"hoje ainda te vou roubar um beijo"


É um prazer.
Uma vidinha a caminho de tudo que partiu do quase nada numa noite cheia de estrelas.
São só imagens – mas serão sempre as primeiras.
Tu e eu na baixa em frente à loja das noivas. Dá a mão, tira a mão, dá a mão, tira a mão.
Olha uma estrela, um planeta. "hoje ainda te vou roubar um beijo".
"tens mesmo de ir para casa?" "tenho mas não quero".
Já ganhei. Saiu-me a sorte de uma vida com mais vidas por acréscimo.
Saíste-me ao caminho numa noite de junho. E essa noite é uma imagem.
Amo-te.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Reunião às 10


Entrou afogueado no escritório. Estava atrasado, tinha um relatório para fazer antes da reunião das 11 e meia e outro para terminar que tinha começado em casa. E já eram 9 e um quarto. Afogueado ou não, atrasado ou mais que a tempo, a verdade é que sorriso da loura do departamento jurídico não lhe saía da cabeça. Raios parta – pensou. Concentra-te um bocadinho; larga as gajas e começa a fazer a merda dos relatórios antes que dês por ti e não tenhas nada feito. Assim foi. Fechou a porta, sentou-se e assumiu uma postura firme de quem é capaz de levar a empreitada até ao fim sem um bocejo. Enquanto o computador iniciava, foi tirar um café. Nem por acaso, a loura. Bom dia. Olá Maria. Café? – perguntou ela. Sim se faz favor. - silêncio incómodo – sai um café que ela lhe entrega. Não, fica com esse. Não deixa. Queres açúcar? Sim sim. Fazes-me companhia? Ahhhh – às tantas os relatórios podiam esperar mais um bocadinho; o que não podia esperar nem ser negado era este convite – claro. Sentaram-se. Muito trabalho? Algum. Tenho que acabar uns relatórios para uma reunião agora às 10. e tu? Uns pareceres e umas coisinhas. Sabes, estava aqui a pensar que já trabalhamos aqui há uns dois anos e tal e nunca fomos almoçar, nunca conversámos. – Olá... que conversa boa logo de manhã. Vá, convida-a para almoçar hoje e vai mas é acabar a porra dos relatórios. Pode ser hoje? – disse-lhe enquanto se levantava e bebia o último golo de café.
Olhos nos olhos ela disparou: hoje não me dá jeito que vou almoçar com o meu marido e vamos ao colégio dos miúdos, mas amanhã por mim ‘tá óptimo. Aproveitamos e falamos um bocadinho daquele cliente novo. Acho que me podes dar uma ajuda a perceber melhor o que é que se pretende. Só não largou um "f***-se" porque era chato e a despropósito. Mas apeteceu-lhe. Amanhã? ‘tá bem. Saiu cabisbaixo e foi fazer os relatórios. Não há nada como um duche de água fria para um gajo se concentrar.

terça-feira, janeiro 03, 2006

o que é que se diz?

Quando alguém nos faz sorrir – como tu – só de te ver, o que é que se diz?
Quando alguém nos faz sentir bem – como tu – só de estar a pé de ti, o que é que se diz?
Quando alguém nos faz ter vontade de agarrar os dias – como tu – só de saber que os vamos passar contigo, o que é que se diz?
Quando alguém nos faz querer viver para sempre – como tu – só de sentir o teu corpo quente, o que é que se diz?
Quando alguém nos faz sentir único no meio de uma multidão – como tu – só de cruzar os olhos com os teus, o que é que se diz?
Quando alguém nos faz escrever textos assim – como tu – só de me lembrar que existes, o que é que se diz?