
Fez o caminho que outros já tinham feito e era a esta altura, uma mulher feliz. Tinha 2 filhas lindas, já mulheres, e 3 netas de cortar a respiração. A mais velha – ainda sem ter 2 anos feitos – e as gémeas – com menos um ano – faziam as delícias da jovem avó. Tinham sido todas uma luz que se acendera dentro dela. A par das suas filhas e dos pais – ainda vivos – as princesas eram a sua luz e os “tão lindas” repetiam-se a cada visita, a cada gesto.
Era para elas que dirigia a sua atenção e eram elas – tão pequeninas – que a faziam levar um pesado barco para a frente. Mas ia.
Como tantas outras mulheres, tinha enfrentado um divórcio penoso e difícil e como tantas outras mulheres tinha conseguido sair do negro buraco da solidão.
Levava a vida por objectivos e apontava a direito rumo às metas. Uma viagem, uma cozinha nova, uma casa de fim de semana. Tudo metas que atingira com esforço e com trabalho mas onde orgulhosamente chegara.
A viagem fizera-se como qualquer viagem. Com altos e baixos, mudanças de estação, confortos e desconfortos, agrados e desagrados. Fizera a sua viagem com discussões, chatices, indisposições. Acima de tudo, fizera a viagem com a consciência de uma boa mãe e a devoção de uma boa filha. Norteara por aí o seu caminho e não falhara.
Feliz ao seu modo e timidamente sociável conhecera algumas carruagens para além da sua. Por curiosidade e desmedida vontade de aprender, agarra-se à pintura com carinho e ostentava com orgulho as suas obras. Perdia horas e reproduzir uma fotografia que achava “bonita”. E finda a tarefa, mostrava-a a toda a gente. “Já viste o meu quadro novo?” e entrava uma neta em cena: “tão linda”.
Eram estes os seus dias mais recentes. Por entre uma ida ao ginásio e as tarefas normais de uma jovem-avó-reformada-ama-das-netas, ainda arranjava tempo e paciência para um jantar com amigos, um passeio de fim de semana, uma ida ao Alentejo.
Por altura do natal, o tempo frio e uma súbita perda de apetite fê-la ir abaixo e temer uma nova operação.
Maldito bicho que teimava em formar-se no corpo com uma cadência estupidamente ritmada e que fazia soar os alarmes de ano a ano.
Mais uma vez, viu-se na injusta rotina de exames repetidos vezes sem conta e diagnósticos que já sabia na ponta da língua. “temos que operar”. Mas desta vez foi diferente. Não foi possível tirar o bicho fora. Não foi possível mudar de carruagem e seguir viagem.
Guinchou no desvio e magoou toda a gente à volta. Fez mossa.
Apagaram-se as luzes da esperança, da vontade, da vida.
A meio caminho da estação com correspondência com “Mais Tempo”, desviou-se o combóio para a Estação Terminal.
Apesar de tudo, a viagem tinha sido boa.
Boa Viagem. Vai com cuidado.